Blogue especialmente dedicado à minha filha Marta Castro *a razão maior duma vida em amor*

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Noções de saudade

Falam de mim mas não sabem
Quantas saudad
es me cabem
Na alma que vive em mim
Saudades que até me dão
A mais perfeita noção
Do quanto é bom ser assim

Penso que tenho o direito
De aconchegar em meu peito
Os sonhos que em mim persistem
Penso até que ao ir sonhando
Vou livremente voando
Por céus que sequer existem

Nunca perdi a noção
Do amor, nem da razão
Com que vivo e a que me dou
Tal como nunca perdi
Esta paixão que senti
Quando o fado me abraçou

Falem de mim mas não digam
Que as saudades me castigam
Ou que me fazem sofrer
As saudades são apenas
As vivências mais serenas
Que tenho sem escolher

O princípio do amor

Qualquer caso d’amor começa assim:
Um olhar, um sorriso e um espanto
Um coração batendo tanto, tanto
Que parece querer chegar ao fim

A boca com vontade de dizer
Mil versos, pela voz do coração
Para melhor fazer compreender
A magia real duma paixão

Um aceno de rara simpatia
Com as mãos do desejo sonhador
Um perfume com aroma de magia
Simbolizando o convite do amor

Duas bocas perdidas p’lo desejo
Duas mentes desejando perdição
O sabor da paixão no mesmo beijo
Selando a mais perfeita comunhão

Estas palavras

Estas palavras sem cor
Perdidas na minha voz
São rios buscando foz
No oceano do amor

Estas palavras sem sal
Perdidas neste poema
São a imagem suprema
Dum capricho natural

Estas palavras que são
Fruto da minha saudade
São ecos da liberdade
Com que vivo em solidão

Solto poemas ao céu
P’ra que fiquem com o vento
A não ser o pensamento
Nada mais tenho de meu

O amor é luz do sonho

Quem não vê o amor brilhar
Não pode sequer sonhar
Com um futuro risonho
O amor é chama acesa
Que nos dá sempre a certeza
Do brilho que tem o sonho

Quem renega um simples beijo
Não sabe quanto desejo
Pode um beijo provocar
A boca que se rejeita
Tem a imagem perfeita
Dum fado por desvendar

Quem tem o amor em má conta
Não sabe o que a alma apronta
Quando junto de seu bem
Quem não ama e não se dá
Jamais compreenderá
A força que o amor tem

A magia da saudade

Mais uma vez de surpresa / E sem tempo anunciado
A saudade portuguesa / Ficou presa no meu fado
Fez de mim porto seguro
E dum jeito delicado
Fez do fado um amor puro

REFRÃO
Esta saudade que o amor legou
Tem a voz de alguém que já nos deixou
Esta saudade que é do nosso agrado
Tem a luz do nosso fado

Um amor com a candura / E a frescura da poesia
Um amor que não tem cura / Tem ternura e tem magia
Um amor de rubra cor
Que me nos trouxe a fantasia
Duma alma toda em flor

Relógio do meu tempo

Ó relógio da vida, avança lentamente 
E deixa-me ser eu a marcar a idade
Por mim será cumprida a missão de ser gente
Gente que só nasceu por casualidade

Ó relógio do tempo, aceita a minha lei
Que pede simplesmente um pouco d'atenção
Dá-me mais um momento e eu juro, cumprirei
Religiosamente, a sina que me dão

Ó relógio que bates as horas da loucura
Bate mais devagar enquanto a paixão vive
Relógio, não maltrates as vidas sem ternura
E deixa-me sonhar loucuras que não tive

Uma jornada por dia

Cada dia, uma jornada
Em rotação permanente
Nesta longa cavalgada
Cada jornada, uma estrada
Cada estrada, um passo em frente

Nesta louca correria
Em direção conhecida
Cada dia é mais um dia
Que ao chegar nos anuncia
Um rumo de nova vida

Nesta jornada tão breve
Mais breve que sol d’agosto
A alma fica mais leve
Ao sentir flocos de neve
Na magia do sol posto

Maldita dor

Oh maldita dor que marcas presença
Trazendo a amargura violentamente
Causadora-mor da dor mais intensa
Que deixas escura a alma da gente

Sabemos que tens a vil crueldade
Usada a destempo de forma mordaz
E sempre que vens roubar felicidade
Trazes o tormento que tanto mal faz

Pareces ausente, mas surges do nada
Como que uma luz em noite chuvosa
Ninguém te pressente, porque vens calada
Deixando uma cruz na alma chorosa

Oh maldita dor, vai-te lá embora
E deixa comigo a minha verdade
Eu quero supor que a alma só chora
Porque tem consigo a luz da saudade 

Depois... amor

Depois amor, depois vou ter contgo
Agora, podes crer, estou ocupado
Ocupado a escrever p'ra meu castigo
A história dum amor já terminado

Depois amor, depois vou procurar-te
P'ra te cantar o fado que compuz
Talvez asim, amor, possa mostrar-te
O peso que carrego em minha cruz

Depois amor, depois confessarei
As falhas que de mim a alma sabe
Naturalmente amor, assumirei
A culpa que decerto a mim me cabe

Depois amor, se a vida assim quiser
Não mais haverá antes nem depois
Terei de novo um fado p'ra escrever
Mas desta vez um fado p'ra nós dois

Esperança derrotada

Perdi tantos, tantos dias
A sonhar com teu amor;
Que as noites ficaram frias
As madrugadas vazias
E os dias sem luz, nem cor

Perdi a estrela acesa
Da estrada percorrida;
Perdi também a certeza
De ver a mãe natureza
Dar novas vidas à vida

Perdi os sonhos dourados
Que a noite trouxe por ti;
Até a alma dos fados
Que por ti foram cantados
Sem querer também perdi

Só não perdi, felizmente
Os sonhos que a alma alcança;
Meu amor, amor ausente
És a rima permanente
Dum fado rimando esperança

Os nossos silêncios

Nosso amor, verso rimado… em sintonia
Nos fados de qualquer voz… e qualquer cor
Tem rimas que são pecado… que anuncia
Quando há silêncio entre nós… e em nosso amor

Silêncio que nos obriga… por momentos
A suportar os espaços… que nos dão
Onde faltam os abraços… ternurentos
E uma palavra amiga… em comunhão

Com os acordes da voz… enternecida
Vamos disfarçando a dor… de sermos sós
Que fica sempre menor… e mais sentida
Quando a rima somos nós… somente nós

A nobreza da alma

Ao fado só não dou o que não tenho
Ao fado só não vou quando não posso
O meu amor não tem nada d'estranho
Estranho é não gostar do que é tão nosso

Estranho é não sentir a pulsação
Da alma que traduz maior nobreza
Estranho é não ouvir o coração
Cantar do mesmo jeito como reza

Estranho é não gostar de poesia
Nem tentar perceber donde ela vem
Estranho é misturar o mal e o bem
Condenando o amor à revelia

Se o fado tem o doce desempenho
Do sonho que nasceu para ser nosso
Ao fado só não vou quando não posso
Ao fado só não dou o que não tenho

A rapidez do tempo

Parece alucinação
A rapidez quase louca
Com que vivo o dia a dia
Chego a ter a sensação
Que viver é coisa pouca
Pois trago a vida vazia

Vida vazia, cruel
Vida de simples loucura
Loucura que vem de ti
Tu és meu favo de mel
Porém não tens a doçura
Dos poemas do Ary

Não és estrela da tarde
Nem és, para meu castigo
A rosa dum grande sonho
És fogueira que não arde
Porque já não tens contigo
Um amanhecer risonho

Este meu fado saudade

Diz ao fado e à cidade
Que é grande a minha saudade
Diz ao fado e ao país
Que longe não sou feliz

Diz às ruas de Lisboa
Que a saudade não perdoa
E diz às ninfas do Tejo
Que morro apenas num beijo

Esta distãncia
Tem sempre a janela aberta
E tem a palavra certa
Para rimar com saudade
Esta distãncia
É um sopro magoado
Que desperta em mim, mais fado
Mais fado e mais felicidade


Diz às estrelas do céu
Que o luar é todo meu
Pede à chuva, pede ao vento
Que afaguem o meu lamento

Diz aos poetas da vida
Que vivo d’alma ferida
Diz ao meu velho país
Que longe não sou feliz

Balada do futuro

Terminada a escola / Toca a trabalhar
Poisando a sacola / Em qualquer lugar

O caminho agora / É bem diferente
Trabalha e namora / Homem feito gente

Já pensa em cigarro / Já bebe café
Sonha com um carro / Sempre que anda a pé

Já vai para a farra / À hora que quer
Tem uma guitarra / Para se entreter

Vai para a bancada / Ver o futebol
Leva a namorada / Nos dias de sol

Sai com os amigos / P’ra jogar bilhar
Foge dos perigos / Evita falhar

Montou uma empresa / Do ramo que gosta
E tem a certeza / De ganhar a aposta

Pela internet / Divulga o que tem
E apenas promete / Vir a ser alguém

Casado e feliz / Família a crescer
Amando o país / Que o viu nascer

Projeta o futuro / Nos passos que dá
Tornando seguro / O seu amanhã

O tempo vai indo / A vida a rolar
Tem um sonho lindo / P’ra realizar

A grande paixão / Que o traz agarrado
É tocar violão / E cantar o fado

Fim de linha

Parti o vidro da janela onde a saudade
Vinha espreitar a minha alma tão dolente
Parti o vidro, porque o vidro, na verdade
Nada guardava por ser vidro transparente

Mudei a chave da portada do meu lar
Para que tu não mais viesses ter comigo
Mudei a chave para não puderes entrar
Na minha casa, por não ser o teu abrigo

Mudei o email e mudei de telefone
Também mudei o meu perfil no facebook
Porém mantive a minha idade e o meu nome
A cor de pele, o meu sorriso e o meu look

Mas se vieres e me trouxeres nova paixão
Com garantias de mudanças p'ra melhor
Aceitarei e abrirei meu coração
Porque afinal nada mudou no meu amor.

Impaciência

Enquanto não vieres, não adormeço
Apenas porque fico sempre alerta
De ti não me separo e nem esqueço
Que só de ti me chega a hora certa
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Enquanto não vieres, já nada conta
Apenas a minh'alma te procura
Tu és a estrela-guia que me aponta
Caminhos que me levam à loucura
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Enquanto não vieres sou voz fechada
Fazendo do silêncio a lei bendita
Até que a noite imensa e ansiada
Desperte no amor que por ti grita

Contraponto

Sabendo a dimensão do amor que tenho
Aceito a dimensão do meu fracasso
Rejeito tempestades que desdenho
Levando a minha voz ao meu espaço

De quando em vez, perdido na cidade
O palco onde o poeta é mais vulgar
Liberto a minha sã leviandade
E vou de peito aberto, então, pecar

Eu peco quando olho sem limite
O corpo da mulher que por mim passa
E peco quando em vez duma chalaça
Exibo o atrevimento dum convite

Eu peco quando tenho a pretensão
De ter uma só rua para mim
Eu sou o contraponto do verão
Que ao beijar uma flor, queima o jardim

Chuva a meu gosto

A chuva chegou bem cedo
Mas partiu tão em segredo
Que quase ninguém notou
Partiu deixando a certeza
Que regressa mais acesa
P'ra rever o que deixou

A chuva terá saudade
De passear na cidade
E molhar solo sagrado
Ao regressar vai querer
Ir pela mão do prazer
Sentir o cheiro do fado

Enquanto a chuva não chega
A minh'alma não renega
O tempo que tem agora
Não sendo o tempo que quero
Eu não entro em desespero
Porque a chuva não demora

A saudade e a memória

Eterna saudade que faz da memória
Poema-verdade no livro da história

Saudade maior que mesmo dorida
Realça o amor no curso da vida

Pintada em poema com tintas de sangue
A saudade é tema quase sempre exangue

Exangue por dar fraqueza demais
Fazendo soltar suspiros e ais

Saudade que chora, saudade que dói
Fogo que devora, maltrata e destrói

Saudade que mora nas cordas da voz
Quando a alma chora por dentro de nós

Por leis que desconheço

Chegei aonde cheguei
Tenho o nada que mereço
E por leis que desconheço
Comecei logo no berço
A cumprir a minha lei

Reneguei sonhos nefastos
Por recear o seu preço
E por leis que desconheço
Vivi sonhos muito gastos
Com empenho e muito apreço

Para conhecer o mundo
Virei a vida do avesso
E por leis que desconheço
Fui poeta vagabundo
No meu poema disperso

Tenho a triste sensação
De não ser o que pareço
E por leis que desconheço
Naturalmente obedeço
À lei de qualquer paixão

Bastião do amor

Bastião deste lar feito d'amor
Bastião do amor a que me dou
Perfeição do olhar madrugador
Bendita cor que a vida me ofertou

Milagre que chegou na hora certa
Pra dar rumo feliz ao meu caminho
Contigo partirei à descoberta
Da luz maior que vem do teu carinho

Por ti, eu subirei vales e montes
E vencerei montanhas sinuosas
Irei buscar a água às melhores fontes
Irei buscar perfume às melhores rosas

Não há barreiras fortes que m'impeçam
De te dar o futuro em salva d'ouro
As minhas ambições em ti começam
Bastião que és o meu maior tesouro