Blogue especialmente dedicado a minha filha *MARTA CASTRO* a razão maior duma vida em amor !!!

Eu tenho a noção exata // Das minhas limitações // Mas quando d'amor se trata // Perco todas as noções.

A maior parte destes // 670 // poemas têm o Fado como destinatário.

*

Fraquezas naturais

As fraquezas naturais
Provocadas p'lo amor
Mesmo que sejam demais
Fazem bem à própria dor

Fazem bem porque, ao de leve
Sem que a alma se apoquente
São vento que sopra breve
No coração de quem sente

Parece até que ao soprar
Docemente em melodia
O vento tenta mostrar
A força da poesia

Sendo assim, qualquer fraqueza
Que saiba ser o que é
É o sonho, concerteza
A manter o amor de pé

Ofertas do tempo

O tempo que me ofertou
O direito a respirar
Nunca nunca me negou
O direito de sonhar


Quando nasci, algemado
A normas que alguém criou
Entendi o triste fado
Em que o amor me gerou;
Foi assim que se moldou
A alma que tenho em mim
E me levará ao fim
Sem deixar de sublinhar
O tempo que me ofertou
O direito a respirar


Sonhando fui construindo
Castelos de amor e fado
E do meu amor infindo
Nasceu um fado encantado;
Logo após realizado
O sonho de ser alguém
O tempo, por mal ou bem
Por muita sorte ou azar
Nunca nunca me negou
O direito de sonhar

Madrugada silenciosa

Com o olhar sempre aberto
Com o coração desperto
E com a alma em pressão
Vagueio p'la casa toda
Porque tudo m'incomoda
Só o silêncio é que não

Vou de passo demarcado
Dum lado p'ra outro lado
No meu espaço possível
Descubro então que a saudade
Também tem necessidade
De se tornar invisível

Vejo as paredes e sinto
Que vivo num labirinto
Desconhecendo a saída
As paredes me parecem
Montanhas que não conhecem
Todas as cores da vida

Libertação e fado

Libertei-me
Da algema que me prendia
Do medo que me impedia
De levar meu sonho além
De peito aberto
P'la força que em mim pulsava
Disse ao fado que o amava
E o fado sentiu-se bem

Sentiu-se bem
E abriu nesse momento
As portas ao meu talento
Pequeno, mas muito meu
Ficou comigo
Para não mais me deixar
E sentir-me partilhar
O dom que a vida me deu

Meu fado amigo
Meu porta-voz preferido
Tudo tem outro sentido
Quando me bailas na voz
Meu fado amigo
Mensageiro natural
Dum coração, que afinal 
Se bate, bate por nós

Existem dias assim....

Nos dias que odeio a vida
Sou ave meio perdida
Sem ter sequer um espaço
Onde gritar o cansaço;
Que magoa e enfraquece
O tempo que me acontece

Nos dias que odeio a vida
Sou sombra meio escondida
Que se mistura no tempo
Em que tudo é desalento;
Buscando a cor ideal
Dum amor intemporal 

Nos dias que odeio a vida
Sou rima meio esbatida
Que não cabe num poema
Nem tem a força suprema;
Dum soneto arrasador
Onde o tema é o amor

Nos dias que odeio a vida
Sou também a dor sentida
Marcada no adeus profundo
De quem partiu deste mundo;
Deixando a dor da saudade
Ensombrando a felicidade

Incondicional

Tenho de aprender depressa
O sentido da razão
Para que minha cabeça
Mande mais que o coração

Por me sentir totalmente
Dependente do amor
Dou sempre maior valor
Aos sopros que o peito sente

Mas nem sempre tenho o dom
De gerir o sentimento
Que me decreta o momento
Em que fervo, qual vulcão

Só quando extinguida a chama
Que me queima em vendaval
Posso ser alguém que ama
Dum jeito incondicional


Anjo estranho

Anjo do bem e do mal
Primavera e vendaval
Amor forte e desamor
Tenho motivos de sobra
Pra pensar que tua obra
É misto de raiva e dor

P’la manhã és doce brisa
Que docemente desliza
Pelos vitrais da ternura
Porém, quando a noite chega
És fogo que se renega
Quando o amor te procura

Ficas distante
Ficas para lá do tempo
Fechas teu mundo
Ao sufoco da paixão
Amor amante
Meu estranho sentimento
Meu poema moribundo
Nos braços da solidão

Sobressalto rotineiro

Acordou sobressaltado
E viu que estava atrasado 
Para a reunião do dia
Saltou p’ra fora da cama
Libertou-se do pijama 
E banhou-se em água fria

Boa camisa, gravata
Os botões de punho em prata
E anel da mesma matéria
Fato de seda mui fina
Sapatos de pele genuina
No rosto uma cara séria

Sem tempo para café
Desceu à rua e até
Nem se reviu ao espelho
Pôs o carro a trabalhar
E na pressa de arrancar
Passou o sinal vermelho 

Porém, o mais mais caricato
E porque não, o mais chato
 Deste episódio narrado
É que o no dia anterior
Este senhor diretor
Também chegou atrasado

Conclusão:
Diretores e diretoras
Nem sempre chegam a horas!

A ternura da saudade

Música do fado *Segue o teu rumo* de Francisco Carvalhinho

Somei as noites todas que vivi
Aos fados que guardei só para mim
A conta bateu certa, pois no fim
A vida deu-me a soma que pedi

Os fados que guardei são os pecados
Que que nunca cometi, infelizmente
Talvez seja melhor e mais prudente
Embalar a saudade nesses fados

Fado memória…
Fado meu, fado glória
Fado que não conta a história
Da viagem que escolhi
Fado que canto…
Feito riso, feito pranto
Fado meu que eu amo tanto
Vivo por ti... e pra ti


Somei todos os versos que cantei
Aos versos a que nunca dei a voz
Somei também as rimas que por nós
Bailaram ao compasso que lhes dei

Só não somei a dor que me apoquenta
Por saber o que fiz e o que não fiz
Mas mesmo assim afirmo, sou feliz
Vivendo esta saudade ternurenta

Poesia de bandeja

Um verso, simples que seja
É sempre uma porta aberta
Na casa do coração
Servindo numa bandeja
Suspiros de rima certa
Com laivos de tradição

Por natural ou vulgar
Que assim à primeira vista
Um verso possa parecer
A alma que o vai cantar
Se for alma de fadista
Vai dar-lhe aquilo que quer

Um verso quando rimado
Sempre tem uma janela
Aberta ao brilho do amor
O fado é sempre mais fado
Quando o poeta é a estrela
Que o faz brilhar melhor

Despertar citadino

Quando a cidade dorme e a noite faz presença
Todos as emoções abraçam a saudade
Mesmo que seja enorme a escuridão imensa
A luz dos corações tem mais claridade

Quando a cidade acorda antes do reboliço
Já meio mundo vive em grande agitação
E assim à força toda em jeito de feitiço
O sonho é quem comanda a lei do coração

O dia avança triste em direção incerta
Recebendo atropelos e outras coisas tais
O medo não resiste à vontade concreta
De quem vive desvelos e outras coisas mais

E quando a noite vem à hora do costume
Já tudo nos parece um conto do passado
No regaço de alguém em permanente lume
Rezamos uma prece ao som dum lindo fado

Os braços da vida

Nos braços da boa sorte
Tudo tem outro sabor;
O rumo é o vento norte
E as nuvens ganham calor
Nos braços da boa sorte

Nos braços da esperança
A vida custa a passar
Sem tempo nada se alcança
E vale a pena esperar
Nos braços da esperança

Nos braços da tempestade
Sentimos a voz do vento
Para sonhar, nunca é tarde
E o sonho tem mais alento
Nos braços da tempestade

Nos braços deste poema
Ponho as algemas do amor
Viver por ti, vale a pena
Sonhar contigo é melhor
Nos braços deste poema

Sempre a tempo

Vens sempre tarde
E mesmo assim, cá estou eu
P’ra te dar um beijo meu
Embrulhado em amor puro
Mas mesmo tarde
Podes crer, fico contente
Contigo no meu presente
Brilha melhor o futuro

Vens sempre tarde
Porém já me habituei
Confesso até que já sei
O teu jeito de chegar
Vens sempre tarde
Minha saborosa esp’rança
E eu pareço uma criança
Correndo p’ra te abraçar

Vens sempre tarde
E chegas sem avisar
Presumindo, se calhar
Que não me encontras aqui
Podes vir tarde
Podes vir a qualquer hora
Eu sem ti não vou embora
Pois não sei viver sem ti

Rotinas do povo

Manhã cedo, vida fora
Vai o povo a que pertenço
Lutar, como sempre fez
Tendo a fé por protetora
Transporta esse dom imenso
O dom de ser português

No olhar, vão mil cuidados
Evitando os tropeções
Que trazem fatalidade
Na alma, vão muitos fados
Que são mais de mil razões
Para chorar de saudade

Nesta rotina normal
A que foi habituado
Sem ter por onde escolher
O povo de Portugal
É o espelho do fado
Que lhe deram p’ra viver

O regresso da noite

Quando a noite regressa à hora habitual
Traz sempre para mim a luz da nostalgia
E assim recomeça este meu vendaval
Que apenas tem seu fim quando começa o dia

Quando a noite aparece, aparecem também
Recordações que são rimas da voz que sou
A minh'alma amanhece e nada nem ninguém
Presta alguma atenção ao sonho a que me dou

Quando a noite se cansa e abala em secretismo
Deixando para trás os sonhos que me deu
Pareço uma criança à beira do abismo
Tentado ser capaz de rebuscar o céu

Faz-me tudo muita falta

A saudade que me assalta
Nada tem que seja estranho
Pois é do mesmo tamanho
De tudo o que me faz falta

Faz-me falta o teu olhar // Cheio de brilho feliz
Olhar que sabe falar // Quando a boca nada diz

Faz-me falta o teu silêncio // Na hora da perdição
Tornado bem mais intenso // O sufoco da paixão

Faz-me falta a tua voz // Gritando versos d’alguém
Como que a pedir por nós // Aos dias que a vida tem

Fazem-me falta teus passos // Caminhando em minha casa
Fazem-me falta os abraços // Que me dás co’a alma em brasa

Faz-me falta estar contigo // Sem que ninguém dê por nós
No porto do nosso abrigo // Onde nunca estamos sós

Faz-me falta ouvir um fado // Sem a marca da saudade
Um fado onde a felicidade // Tenha destino marcado

Convite

A noite convidou-me a sonhar acordado
Enquanto a luz da lua ardia em nossa cama
O amor aconselhou-me a cantar-te num fado
Co'a alma semi-nua e o coração em chama

Mais tarde, a luz do dia invadiu nosso leito
Um leito que foi feito a pensar no futuro
Um futuro que abria as ruas do meu peito
Assim daquele jeito, imensamente puro

E quando parecia fechar-se para nós
A alma dum poema intensamente teu
Um sopro de magia invadiu-nos a voz
E a paixão foi o tema a levar-nos ao céu

Insuficiente

Sou um homem de paixões // sou defensor
De afetos e muito fado // à flor da vida
Queria dois corações // ao meu dispor
P'ra te amar em duplicado // minha querida

É bem pouco um coração // tão pequenino
P'ra tanto que tenho em mim // e quero dar
No entanto, mesmo assim // bem genuíno
Vou amando em devoção // só por amar

Amo a vida pela sorte // e pla magia
De ser dono deste fado // que vos canto
Amo a estrela do norte // estrela guia
Que me tem orientado // tanto, tanto

Amo tudo em meu redor // é mais além
Menos a dor e a maldade // natural
Amo o teu imenso amor // que me faz bem
Amo a nossa felicidade // intemporal

Fado X3 = a fado

Fado, fado e muito fado
Três géneros musicais
Que fazem o meu agrado
Muito embora existam mais

Nem todos concordarão
Com a minha preferência
Mas esta minha opção
Tem enorme consistência

Sempre que sou confrontado
Com gritos e com ruídos
Rogo aos deuses do meu fado
Que me tapem os ouvidos

De ouvidos bloqueados
Vou à procura de Fados
Pra dar o melhor sustento
Ao coração que alimento

A força que tem o tempo

O tempo não se perde em coisas fúteis
Nem se perde nas ruas da maldade
Momentos sem valor são sempre inúteis
Apenas tiram tempo à liberdade

O tempo é sempre o bem mais precioso
Dos bens que a natureza concedeu
O tempo pra viver... é mais custoso
Na hora em que não há luar no céu

Um dia tive tempo e não vivi
Da forma mais perfeita, mais real
Só mais tarde dei conta que perdi
O tempo da verdade especial

Depois corri atrás do tempo ido
Corri, corri... mas não o alcancei
Agora dou o tempo por perdido
E faço deste tempo a minha lei

Minha alma meu fado

Dei a alma toda ao fado
Fui fadista a vida inteira
Neste jeito dedicado
De honrar a minha Madeira

Nasci fadista por sina
Sou fadista por condão
Mulher que já foi menina
Outono que foi Verão

Ainda tenho vontade
De mostrar, com grande empenho
Esta alma que mantenho
Que a alma não tem idade

Vivo feliz na certeza
De ter dado por inteiro
Este jeito verdadeiro
De ser mulher portuguesa

Escrito para a voz de Eugénia Maria *fadista madeirense*

Saudade cantadeira

A saudade foi ao fado
Mais uma vez com vontade
De pôr a alma à janela
Por lá ficou, lado a lado
Com a dona felicidade
Que também lá foi com ela

Ficaram juntas ao canto
Da sala, aonde os cantores
Punham nostalgia em nós
E foi com algum espanto
Que ao ouvir falar d'amores
A saudade ganhou voz

Cheia de brio e de garra
Movida pela poesia
A saudade motivou-se
Depois, ao som da guitarra
Cantou com rara mestria
E o fado emocionou-se

Com o olhar marejado
Com a alma bem acesa
E de peito a bater forte
A saudade e o senhor fado
Deram alma portuguesa
Ao fado da nossa sorte

Escrito para a voz de Angela Pimenta *fadista madeirense*

Sopro madeirense

O sopro do meu fado é um poema
Que canto à minha Ilha da Madeira
Poema que só tem força suprema
Por ser cantado assim desta maneira

Cantando com prazer e com rigor
Sentida pela alma que hoje sou
A força deste fado tem a cor
Da fé que o céu da ilha me ensinou

A minha condição de ser fadista
É culpa desta raça portuguesa
Que não se compra, apenas se conquista
Com brio e com muito mais nobreza

O sopro do meu canto é este amor
Que faz de mim um ser abençado
Bendito este jardim encantador
Bendita esta Madeira do meu fado

Escrito para a voz de Maria José Figueira *fadista madeirense*

Poetas da minha estrada

Poetas da solidão
Não é em vão que vos canto
Nas rimas do coração
Fui descobrindo a razão
Dum fado que eu amo tanto

Poetas do pensamento
Convosco tudo é melhor
É melhor a voz do vento
É melhor o sentimento
É melhor a minha dor

Poetas da minha estrada
Viajantes do meu fado
Sempre que a noite é cantada
A alma da madrugada
Tem um sabor encantado

E sempre que a liberdade
Põe rimas na nossa voz
Ao compasso da saudade
O fado não tem idade
Os poetas somos nós

O coração dos poetas

O coração dos poetas
Fala mais do que mil bocas
Sempre com palavras certas
Sempre com ideias loucas

Ideias que se misturam
Com sonhos intemporais
Os tais sonhos que perduram
No mais comum dos mortais

Os poetas são a fonte
Onde podemos beber
O elixir do prazer
Da alma que anda a monte

E quando o poeta sente
A divina inspiração
Solta versos, mostra à gente
A cor do seu coração

Dentro do meu fado

(A DIMENSÃO)
Dentro da vida que tenho
Por vontade adquirida
Sou apenas do tamanho
Dum vulgar sopro de vida
Que vive com grande empenho

(A REGRA)
Dentro da paz que cultivo
Para que a vida tenha cor
O amor é o motivo
Que me obriga a ser melhor
E mantém o sonho vivo

(A MÃE/O PAI)
Dentro dos versos que faço
Quando a musa me visita
Vou ocultando o fracasso
Desta vontade infinita
De dormir no teu regaço

(O CONCEITO)
É dentro deste conceito
Que vou pelo tempo fora
Tentando encontrar o jeito
De aguardar pla minha hora
Sem que tudo esteja feito

Galeria das almas

As almas que fizeram da poesia
O som encantador que vive em nós
Merecem figurar na galeria
Da luz que por amor tem sempre voz

As almas que partiram à procura
Dum sonho angelical e cor de rosa
Merecem que o luar da noite pura
Lhes traga uma manhã esplendorosa


As almas que em amor abençoado
Nos deram o que tinham para dar
Merecem um lugar bem destacado
Na alma de quem sabe o que é amar

Na alma mora tudo, até o medo
Que faz morrer paixões quase ditosas
A alma é galeria dos segredos
Guardados como jóias preciosas

Secretismo

Guarda contigo o segredo
Do beijo, que quase a medo
Trocamos em boa hora
Só o amor compreende
Que a boca nunca se rende
Ao desejo que a devora

Não contes, nem mesmo ao vento
Que vivemos um momento
De envergonhada ternura
O vento pode soprar
E ao soprar, divulgar
Contornos dessa loucura

Esse beijo envergonhado
Que fez com que o nosso fado
Tivesse novo clarão
Será sempre uma saudade
Cheia da cumplicidade
Que tem de haver na paixão

Guarda na tua memória
O beijo que fez história
Na história que a alma sente
Prometo, meu doce bem
Nunca contar a ninguém
Que te beijei…. loucamente