Blogue especialmente dedicado a minha filha MARTA CASTRO *a razão maior duma vida em amor*

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... eu tenho a noçao exata / das minhas limitações / mas quando d'amor se trata / perco todas as noções ...

* 600 poemas *

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O fado é de quem o ama

O fado não é meu, nem de ninguém
Não tem dono sequer, nem tem patrão
O fado só pertence ao coração
De quem o sente seu e o trata bem

O fado é a mensagem principal
Dum povo que conserva na memória
Momentos, quer de dor, quer de glória
Fazendo o seu passado natural

Passado que por ter a cor cinzenta
Não quer perder o brilho que merece
Passado que sustenta e alimenta
FuTuros que a saudade desconhece

E sempre que a saudade ganha voz
A alma ganha a cor que o fado tem
O fado é povo e o povo somos nós
Portanto.... não é meu nem de ninguém


 

A todos os santos

De tão intensa que é / Cada hora do meu dia
Nem tempo tenho prá fé / Desculpa Santa Maria

De tão breve e tão fugaz / Que é o amor de toda a gente
Nem sequer posso ter paz / Desculpa lá São Vicente

De tão intensas que são / As tentações do demónio
Nem penso na redenção / Desculpa-me Santo António

De todas as aflições / Pelas quais padeço eu
Não mereço ter perdões / Nem de São Bartolomeu

Na hora da despedida / Bem antes do meu velório
Vou em passo de corrida / Abraçar o São Gregório

Voltarei muito mais leve / Sem marcas no coração
Pra beijar quem nunca teve / Festejos de São João

Nem tudo na vida é triste / Nem tudo na vida é mau
E se a desgraça persiste / Valha-nos São Nicolau

De tantos e tão doridos
Que são todos os meus prantos
Eu deixo aqui mil pedidos;
Valham-me todos os santos

Nuvens de fado

A noite prendeu o fado
Com a alma imaginada
Da saudade limitada
P'la voz que tem o passado

Prendeu e ninguém sentiu
Que o fado estava a sofrer
Pela onda que surgiu
No mar que o fado não quer

O mar do fado não é
O brilho que alguém lhe deu
Sendo religião e fé
O mar do fado é o céu

E no céu que o fado alcança
Quando cantado a rigor
As nuvens da esperança
Estão repletas d'amor

Em meu nome

Em nome deste amor sem ter idade
Que faço e refaço a vida inteira
Eu não tenho saudades da saudade
Porque a saudade vive à minha beira

Em nome do amor que tenho ao fado
Sentido, por quem ouve a voz que tem
Eu não tenho saudades do passado
Quando chamo plo fado, o fado vem

Em nome do amor familiar
Que tenho, porque penso merecer
Eu não tenho saudades pra matar
Mas tenho em mim saudades de viver

Por isso e só em nome do que sou
Sabendo que já pouco ou nada presta
Eu só quero a saudade que ficou
Para matar o tempo que me resta

Saudade, forma de amar

Saudade é forma de amar
Com a força que se tem
Nada consegue apagar
O amor de Pai e Mãe

Saudade é forma de amar 
Mesmo quando em nosso peito
Há um amor já desfeito
Que o tempo não vai levar

Saudade é forma de amar
Porque a alma, quando em dor
Teimosa vem relembrar 
Quanto é eterno o amor

Eterno é sempre o penar
Que no tempo se mantém
A maior forma de amar
É o amor de Pai e Mãe

Desfasamento

Eram dois corpos moldados 
Que a natureza criou
Porém, dois rumos traçados
Mais parecendo dois fados 
Que a vida desencontrou

Tinham o brilho ofuscado
Plo prazer e pela chama
Dum amor algo apressado
Feito apenas de pecado 
Nos lençóis de qualquer cama

Eram a prova maior
E muito mais conseguida
Que quando não há amor
Resta apenas o sabor
De duas vidas sem vida

Cada um buscava o acoite 
Que no outro não havia
Voando no céu da noite
Ou no inferno do dia
Onde o beijo é um açoite

Eram dois corpos e apenas 
Se juntavam para amar
Almas com asas pequenas
Agitadas ou serenas 
Que mal sabiam voar

Uma coisa qualquer

Qualquer rua tem história / Qualquer casa tem idade
Qualquer homem tem memória / Qualquer mulher tem vaidade

Qualquer sonho tem destino / Qualquer animal tem fome
Qualquer berço tem menino / Qualquer menino tem nome

Qualquer planta tem vaso / Qualquer jardim tem flor
Qualquer processo tem caso / Qualquer doença tem dor

Qualquer direção tem rumo / Qualquer noite tem luar
Qualquer fogueira tem fumo / Qualquer navio tem mar

Qualquer garganta tem voz / Qualquer cantor tem cantiga
Qualquer rio tem a foz / Qualquer ceifa tem espiga

Qualquer amigo tem ombro / Qualquer erro tem engano
Qualquer guerra tem escombros / Qualquer baile tem piano

Qualquer aldeia tem rio / Qualquer concerto tem luz
Qualquer Verão tem estio / Qualquer pecador tem cruz
- - -
Qualquer mesa tem cadeira / Qualquer cama tem colchão
Qualquer amor tem cegueira/ Qualquer beijo tem paixão

Qualquer país tem bandeira / Qualquer empresa tem dono
Qualquer medo tem barreira / Qualquer ano tem Outono

Qualquer amor tem estima / Qualquer vida tem passado
Qualquer poema tem rima / Qualquer guitarra tem fado

Espelho da minha dor

Espelho meu que me vês // d'olhar distante
Quase sempre em sofrimento // deprimente
Sem perceberes o tormento // agonizante
Que esta solidão me fez // tão cruelmente

Olhas p'ra mim mas não sentes // vê lá bem
Pena das penas que dás // ao respirar
És frio, porém não mentes // a ninguém
Nem sabes como se faz // p'ra disfarçar

Tentas, com subtileza // e algum cuidado
Descobrir fogos em quem // naturalmente
Saiba manter sempre acesa // no meu fado
A chama que o sonho tem // quando é presente

Ai coração meu amigo // voz altiva
Sempre mole ou sempre duro // com empenho
Que pena só teres contigo // em chama viva
Segredos que não procuro // mas que tenho

O peso das palavras

O peso das palavras é tão forte
Tão duro tão real e tão intenso
Que mesmo no azar temos a sorte
De fazer das palavras fogo imenso

Um fogo que não serve pra queimar
Mas sim para aquecer, como convém
Qual chama que ficou a crepitar
Enquanto o sol brilhava mais além

Carregadas de valor intemporal
As palavras despertam atenção
E fazem lei na lei da sensatez

Palavras são o fruto natural
Do pensamento que dá ao coração
Razões para cantar em português

Mãe-saudade

Mãe-saudade, mulher-mãe
Tinha consigo o perfume
Duma rosa natural
E dava, como ninguém
Beijos de mel e de lume
Com instinto maternal

Mãe-saudade, era clarão
A iluminar o caminho
Que a vida lhe preparou
Tinha o genial condão
De fazer do seu carinho
Mensagens que Deus criou

Mãe perfeita, mãe-saudade
Presença sempre constante
Nas trevas que a vida deu
Mulher-vida, amor-verdade
Mulher-força, amor-amante
Mulher-mãe, nuvem do céu

Poeta maior

Quando te entregas 
Em poemas de alma cheia
A tua voz incendeia
Todas as vozes do fado
Cumprindo regras
Que são como mandamentos
Envolves os sentimentos
No mais perfeito bailado
- - -
Bailado imenso
Nos palcos que a vida tem
Com a cadência de quem
Morre e nasce em sedução
E é tão intenso
O poema intemporal
Que as dores de bem e mal
Andam sempre mão na mão
- - -
Rompendo almas
Como quem rompe caminhos
Vais transformado os espinhos
Em rosas de rubra cor
Assim acalmas
O pranto que te nasceu
Quando o deus do amor te deu
Esse talento maior

Em meu nome

Em nome deste amor sem ter idade
Que faço e refaço a vida inteira
Eu não tenho saudades da saudade
Porque a saudade vive à minha beira
-
Em nome do amor que tenho ao fado
Sentido, por quem ouve a voz que tem
Eu não tenho saudades do passado
Quando chamo plo fado, o fado vem
-
Em nome do amor familiar
Que tenho, porque penso merecer
Eu não tenho saudades pra matar
Mas tenho em mim saudades de viver
-
Por isso e só em nome do que sou
Sabendo que já pouco ou nada presta
Eu só quero a saudade que ficou
Para matar o tempo que me resta.

Poema testamentário

Tenho um amor telepático // Que anda a pôr-me cismático
Porque não é muito prático // Tem falta de ar... é asmático
-
Tenho um velho candeeiro // Que dá luz o dia inteiro
E faz de mim prisioneiro // Duma conta sem dinheiro
-
Tenho um fogão mutilado // Com o forno avariado
No qual faço um cozinhado // Que fica sempre estragado
-
Tenho um jarrão amarelo // Que comprei no Cabedelo
Num dia em que um pesadelo // Me fez perder o cabelo
-
Tenho um barco de brincar // Que não sabe flutuar
E que nunca foi ao mar // Com medo de naufragar
-
Tenho um casaco em veludo // Com botões, bolsos e tudo
Que era dum tipo sisudo // Que tinha um nariz bicudo
-
Tenho um carro muito velho // Todo manchado a vermelho
E que tem um aparelho // Em figura de coelho
-
Tenho uma casa a caír // Com parades a ruír
Onde não posso dormir / E da qual quero fugir
-
Tenho um boneco de palha // Metido no meio da tralha
Que nada tem que lhe valha // E nem a pilhas trabalha
-
Enfim... tenho um património // Benzido pelo demónio
Segundo dizem, heterónimo // Do velhinho São Jerónimo
-
Tudo isto e muito mais // Deixarei aos meus rivais
No tal dia em que os meus ais // Não se façam ouvir mais
-
Para já lá vou vivendo
Com misérias que vou tendo!!!

O rio da minha foz

Longe da terra natal
Sinto a voz de Portugal
Bailando na minha voz
E quando o Fado acontece
Todo o mundo me parece
O rio da minha foz

Na caminhada que faz
O rio é sempre capaz
De alcançar o seu destino
Sabendo que vai chegar
Até aos braços do mar
Que o ama desde menino

Ai rio da minha vida
Que nunca dás por vencida
A batalha que travaste
Navego nas tuas águas
Afogando as minhas mágoas
No leito que me emprestaste

Sopros partilhados

Quando partilho contigo
Sopros da alma que tenho
É por te saber amigo
E vires do tempo que venho

Vens do tempo em que ser gente
Era ter à flor do peito
Aquele singular jeito
De saber ser diferente

Vens do tempo em que, por mais
Que a dor te marcasse a vida
Nunca davas por perdida
A luta pelos ideais

Vens dum tempo em que afinal
Ser português verdadeiro
Era ser o mensageiro
Da alma de Portugal:
País amado e cantado
Pela tua voz de fado

No peito duma guitarra

MOTE
No peito duma guitarra
Bate um coração magoado
Quando a saudade desgarra
O fado é muito mais fado


GLOSA
Andam rimas saltitando / Na alma deste meu brado
São memórias dum passado / Que me vai acorrentando
Embora de quando em quando / Eu vá suportando a cruz
Da tua imagem de luz / À qual minh’alma se agarra
Há um som que me seduz
No peito duma guitarra

Canto com voz de saudade / Para descrever melhor
A triste realidade / De viver sem teu amor
Mas é tão grande o calor / Sentido dentro do peito
Que chego a perder o jeito / P’ra cantar o meu pecado
Neste meu fado imperfeito
Bate um coração magoado

Se as nuvens do meu tormento / Formassem um novo céu
O gemer do próprio vento / Seria somente meu
No entanto, o olhar teu / Tem muito mais sedução
Tem a força dum vulcão / Rompendo qualquer amarra
Chego a perder a razão
Quando a saudade desgarra

Talvez um fado futuro / Me traga novas promessas
Pois talvez tu não mereças / Este meu amor tão puro
É por isso que eu procuro / Uma rima conselheira
Que seja mais verdadeira / E me traga um sol doirado
Quando a paixão é inteira
O fado é muito mais fado

Poetas da minha voz

De Pedro Homem de Melo 
A Vasco de Lima Couto
Todos cantei com o zelo 
Dum coração sempre solto

Cantei palavras que são 
Mensagens intemporais
Que o poeta, amigo-irmão
Emitiu como sinais

Sinais de fogo e revolta 
Sinais de fogo e amor
Sinais de saudade solta
Nas ruas da voz maior

Sinais de verdade louca 
Bailando num mundo errado
Onde a saudade é bem pouca
Comparada com o fado

Comparada à voz do Fado
Aonde a alma amanhece
Só mesmo a voz do pecado
Quando o amor acontece

Noções de saudade

Falam de mim mas não sabem
Quantas saudad
es me cabem
Na alma que vive em mim
Saudades que até me dão
A mais perfeita noção
Do quanto é bom ser assim

Penso que tenho o direito
De aconchegar em meu peito
Os sonhos que em mim persistem
Penso até que ao ir sonhando
Vou livremente voando
Por céus que sequer existem

Nunca perdi a noção
Do amor, nem da razão
Com que vivo e a que me dou
Tal como nunca perdi
Esta paixão que senti
Quando o fado me abraçou

Falem de mim mas não digam
Que as saudades me castigam
Ou que me fazem sofrer
As saudades são apenas
As vivências mais serenas
Que tenho sem escolher

O princípio do amor

Qualquer caso d’amor começa assim:
Um olhar, um sorriso e um espanto
Um coração batendo tanto, tanto
Que parece querer chegar ao fim

A boca com vontade de dizer
Mil versos, pela voz do coração
Para melhor fazer compreender
A magia real duma paixão

Um aceno de rara simpatia
Com as mãos do desejo sonhador
Um perfume com aroma de magia
Simbolizando o convite do amor

Duas bocas perdidas p’lo desejo
Duas mentes desejando perdição
O sabor da paixão no mesmo beijo
Selando a mais perfeita comunhão

Estas palavras

Estas palavras sem cor
Perdidas na minha voz
São rios buscando foz
No oceano do amor

Estas palavras sem sal
Perdidas neste poema
São a imagem suprema
Dum capricho natural

Estas palavras que são
Fruto da minha saudade
São ecos da liberdade
Com que vivo em solidão

Solto poemas ao céu
P’ra que fiquem com o vento
A não ser o pensamento
Nada mais tenho de meu

O amor é luz do sonho

Quem não vê o amor brilhar
Não pode sequer sonhar
Com um futuro risonho
O amor é chama acesa
Que nos dá sempre a certeza
Do brilho que tem o sonho

Quem renega um simples beijo
Não sabe quanto desejo
Pode um beijo provocar
A boca que se rejeita
Tem a imagem perfeita
Dum fado por desvendar

Quem tem o amor em má conta
Não sabe o que a alma apronta
Quando junto de seu bem
Quem não ama e não se dá
Jamais compreenderá
A força que o amor tem

A magia da saudade

Mais uma vez de surpresa / E sem tempo anunciado
A saudade portuguesa / Ficou presa no meu fado
Fez de mim porto seguro
E dum jeito delicado
Fez do fado um amor puro

REFRÃO
Esta saudade que o amor legou
Tem a voz de alguém que já nos deixou
Esta saudade que é do nosso agrado
Tem a luz do nosso fado

Um amor com a candura / E a frescura da poesia
Um amor que não tem cura / Tem ternura e tem magia
Um amor de rubra cor
Que me nos trouxe a fantasia
Duma alma toda em flor

Relógio do meu tempo

Ó relógio da vida, avança lentamente 
E deixa-me ser eu a marcar a idade
Por mim será cumprida a missão de ser gente
Gente que só nasceu por casualidade

Ó relógio do tempo, aceita a minha lei
Que pede simplesmente um pouco d'atenção
Dá-me mais um momento e eu juro, cumprirei
Religiosamente, a sina que me dão

Ó relógio que bates as horas da loucura
Bate mais devagar enquanto a paixão vive
Relógio, não maltrates as vidas sem ternura
E deixa-me sonhar loucuras que não tive

Uma jornada por dia

Cada dia, uma jornada
Em rotação permanente
Nesta longa cavalgada
Cada jornada, uma estrada
Cada estrada, um passo em frente

Nesta louca correria
Em direção conhecida
Cada dia é mais um dia
Que ao chegar nos anuncia
Um rumo de nova vida

Nesta jornada tão breve
Mais breve que sol d’agosto
A alma fica mais leve
Ao sentir flocos de neve
Na magia do sol posto

Maldita dor

Oh maldita dor que marcas presença
Trazendo a amargura violentamente
Causadora-mor da dor mais intensa
Que deixas escura a alma da gente

Sabemos que tens a vil crueldade
Usada a destempo de forma mordaz
E sempre que vens roubar felicidade
Trazes o tormento que tanto mal faz

Pareces ausente, mas surges do nada
Como que uma luz em noite chuvosa
Ninguém te pressente, porque vens calada
Deixando uma cruz na alma chorosa

Oh maldita dor, vai-te lá embora
E deixa comigo a minha verdade
Eu quero supor que a alma só chora
Porque tem consigo a luz da saudade 

Depois... amor

Depois amor, depois vou ter contgo
Agora, podes crer, estou ocupado
Ocupado a escrever p'ra meu castigo
A história dum amor já terminado

Depois amor, depois vou procurar-te
P'ra te cantar o fado que compuz
Talvez asim, amor, possa mostrar-te
O peso que carrego em minha cruz

Depois amor, depois confessarei
As falhas que de mim a alma sabe
Naturalmente amor, assumirei
A culpa que decerto a mim me cabe

Depois amor, se a vida assim quiser
Não mais haverá antes nem depois
Terei de novo um fado p'ra escrever
Mas desta vez um fado p'ra nós dois

Esperança derrotada

Perdi tantos, tantos dias
A sonhar com teu amor;
Que as noites ficaram frias
As madrugadas vazias
E os dias sem luz, nem cor

Perdi a estrela acesa
Da estrada percorrida;
Perdi também a certeza
De ver a mãe natureza
Dar novas vidas à vida

Perdi os sonhos dourados
Que a noite trouxe por ti;
Até a alma dos fados
Que por ti foram cantados
Sem querer também perdi

Só não perdi, felizmente
Os sonhos que a alma alcança;
Meu amor, amor ausente
És a rima permanente
Dum fado rimando esperança

Os nossos silêncios

Nosso amor, verso rimado… em sintonia
Nos fados de qualquer voz… e qualquer cor
Tem rimas que são pecado… que anuncia
Quando há silêncio entre nós… e em nosso amor

Silêncio que nos obriga… por momentos
A suportar os espaços… que nos dão
Onde faltam os abraços… ternurentos
E uma palavra amiga… em comunhão

Com os acordes da voz… enternecida
Vamos disfarçando a dor… de sermos sós
Que fica sempre menor… e mais sentida
Quando a rima somos nós… somente nós

A nobreza da alma

Ao fado só não dou o que não tenho
Ao fado só não vou quando não posso
O meu amor não tem nada d'estranho
Estranho é não gostar do que é tão nosso

Estranho é não sentir a pulsação
Da alma que traduz maior nobreza
Estranho é não ouvir o coração
Cantar do mesmo jeito como reza

Estranho é não gostar de poesia
Nem tentar perceber donde ela vem
Estranho é misturar o mal e o bem
Condenando o amor à revelia

Se o fado tem o doce desempenho
Do sonho que nasceu para ser nosso
Ao fado só não vou quando não posso
Ao fado só não dou o que não tenho

A rapidez do tempo

Parece alucinação
A rapidez quase louca
Com que vivo o dia a dia
Chego a ter a sensação
Que viver é coisa pouca
Pois trago a vida vazia

Vida vazia, cruel
Vida de simples loucura
Loucura que vem de ti
Tu és meu favo de mel
Porém não tens a doçura
Dos poemas do Ary

Não és estrela da tarde
Nem és, para meu castigo
A rosa dum grande sonho
És fogueira que não arde
Porque já não tens contigo
Um amanhecer risonho

Este meu fado saudade

Diz ao fado e à cidade
Que é grande a minha saudade
Diz ao fado e ao país
Que longe não sou feliz

Diz às ruas de Lisboa
Que a saudade não perdoa
E diz às ninfas do Tejo
Que morro apenas num beijo

Esta distãncia
Tem sempre a janela aberta
E tem a palavra certa
Para rimar com saudade
Esta distãncia
É um sopro magoado
Que desperta em mim, mais fado
Mais fado e mais felicidade


Diz às estrelas do céu
Que o luar é todo meu
Pede à chuva, pede ao vento
Que afaguem o meu lamento

Diz aos poetas da vida
Que vivo d’alma ferida
Diz ao meu velho país
Que longe não sou feliz

Balada do futuro

Terminada a escola / Toca a trabalhar
Poisando a sacola / Em qualquer lugar

O caminho agora / É bem diferente
Trabalha e namora / Homem feito gente

Já pensa em cigarro / Já bebe café
Sonha com um carro / Sempre que anda a pé

Já vai para a farra / À hora que quer
Tem uma guitarra / Para se entreter

Vai para a bancada / Ver o futebol
Leva a namorada / Nos dias de sol

Sai com os amigos / P’ra jogar bilhar
Foge dos perigos / Evita falhar

Montou uma empresa / Do ramo que gosta
E tem a certeza / De ganhar a aposta

Pela internet / Divulga o que tem
E apenas promete / Vir a ser alguém

Casado e feliz / Família a crescer
Amando o país / Que o viu nascer

Projeta o futuro / Nos passos que dá
Tornando seguro / O seu amanhã

O tempo vai indo / A vida a rolar
Tem um sonho lindo / P’ra realizar

A grande paixão / Que o traz agarrado
É tocar violão / E cantar o fado

Fim de linha

Parti o vidro da janela onde a saudade
Vinha espreitar a minha alma tão dolente
Parti o vidro, porque o vidro, na verdade
Nada guardava por ser vidro transparente

Mudei a chave da portada do meu lar
Para que tu não mais viesses ter comigo
Mudei a chave para não puderes entrar
Na minha casa, por não ser o teu abrigo

Mudei o email e mudei de telefone
Também mudei o meu perfil no facebook
Porém mantive a minha idade e o meu nome
A cor de pele, o meu sorriso e o meu look

Mas se vieres e me trouxeres nova paixão
Com garantias de mudanças p'ra melhor
Aceitarei e abrirei meu coração
Porque afinal nada mudou no meu amor.

Impaciência

Enquanto não vieres, não adormeço
Apenas porque fico sempre alerta
De ti não me separo e nem esqueço
Que só de ti me chega a hora certa
-
Enquanto não vieres, já nada conta
Apenas a minh'alma te procura
Tu és a estrela-guia que me aponta
Caminhos que me levam à loucura
-
Enquanto não vieres sou voz fechada
Fazendo do silêncio a lei bendita
Até que a noite imensa e ansiada
Desperte no amor que por ti grita

Contraponto

Sabendo a dimensão do amor que tenho
Aceito a dimensão do meu fracasso
Rejeito tempestades que desdenho
Levando a minha voz ao meu espaço

De quando em vez, perdido na cidade
O palco onde o poeta é mais vulgar
Liberto a minha sã leviandade
E vou de peito aberto, então, pecar

Eu peco quando olho sem limite
O corpo da mulher que por mim passa
E peco quando em vez duma chalaça
Exibo o atrevimento dum convite

Eu peco quando tenho a pretensão
De ter uma só rua para mim
Eu sou o contraponto do verão
Que ao beijar uma flor, queima o jardim

Chuva a meu gosto

A chuva chegou bem cedo
Mas partiu tão em segredo
Que quase ninguém notou
Partiu deixando a certeza
Que regressa mais acesa
P'ra rever o que deixou

A chuva terá saudade
De passear na cidade
E molhar solo sagrado
Ao regressar vai querer
Ir pela mão do prazer
Sentir o cheiro do fado

Enquanto a chuva não chega
A minh'alma não renega
O tempo que tem agora
Não sendo o tempo que quero
Eu não entro em desespero
Porque a chuva não demora

A saudade e a memória

Eterna saudade que faz da memória
Poema-verdade no livro da história

Saudade maior que mesmo dorida
Realça o amor no curso da vida

Pintada em poema com tintas de sangue
A saudade é tema quase sempre exangue

Exangue por dar fraqueza demais
Fazendo soltar suspiros e ais

Saudade que chora, saudade que dói
Fogo que devora, maltrata e destrói

Saudade que mora nas cordas da voz
Quando a alma chora por dentro de nós

Por leis que desconheço

Chegei aonde cheguei
Tenho o nada que mereço
E por leis que desconheço
Comecei logo no berço
A cumprir a minha lei

Reneguei sonhos nefastos
Por recear o seu preço
E por leis que desconheço
Vivi sonhos muito gastos
Com empenho e muito apreço

Para conhecer o mundo
Virei a vida do avesso
E por leis que desconheço
Fui poeta vagabundo
No meu poema disperso

Tenho a triste sensação
De não ser o que pareço
E por leis que desconheço
Naturalmente obedeço
À lei de qualquer paixão

Bastião do amor

Bastião deste lar feito d'amor
Bastião do amor a que me dou
Perfeição do olhar madrugador
Bendita cor que a vida me ofertou

Milagre que chegou na hora certa
Pra dar rumo feliz ao meu caminho
Contigo partirei à descoberta
Da luz maior que vem do teu carinho

Por ti, eu subirei vales e montes
E vencerei montanhas sinuosas
Irei buscar a água às melhores fontes
Irei buscar perfume às melhores rosas

Não há barreiras fortes que m'impeçam
De te dar o futuro em salva d'ouro
As minhas ambições em ti começam
Bastião que és o meu maior tesouro

Silêncio meu amor

Deixa que este silencio, invente uma mensagem
E faça deste fado, um hino ao nosso amor
Deixa que este silencio, envolto de coragem
Vá roubar ao passado, o sol mais redentor

Deixa que este silencio. alucinante e louco
Seja a única lei dos fados que compomos
Deixa que este silencio invente a pouco e pouco
Versos que cantarei em honra do que fomos

Silencio meu amor, silencio... porque a vida
Quer esquecer as regras e a lei em que vivemos
Silencio meu amor, minha fúria incontida
Eu sei que não renegas os sonhos que tivemos

E quando o meu silencio acordar a memória
Deixa que seja eu o dono da saudade
Um amor tão intenso e tão cheio de história
Merece a luz do céu em franca claridade

A saudade e a noite

Esta noite vou saber
Se a saudade faz doer
Quando me baila na voz
Irei cantá-la a preceito
Docemente... e de tal jeito
Que ela falará de nós

Esta noite, vou tentar
Pôr a saudade a rimar
Com as letras do teu nome
Um nome desconhecido
Mas que me soa ao ouvido
Quando de amor tenho fome

Vou ser o rosto da lua
Que se passeia na rua
Onde o sol já teve acoite
Vou ser fado em liberdade
E vou andar co'a saudade
De mão na mão, toda a noite

Amor de toda a vida

Amor de toda a vida e mais que seja
Que não me cansas nunca, nem te cansas
Tu és muito mais forte que a inveja
Que teima em algemar doces lembranças

Luar que sempre brilhas no meu fado
E raramente vais onde não vou
Contigo tens o dom imaculado
Da paixão que a verdade abençoou

Amor que sempre tens a rima certa
Amor que rimas tudo o que tem cor
Talvez seja por ti que sou poeta
Talvez seja por ti que canto o amor

Amor que me seduz e me sufoca
Amor que me condena a ser feliz
A doçura voraz da tua boca
Expressa o que minh'alma nunca diz

Prematuro

Eu já sou muito mais velho 
Do que deveria ser
E não há nenhum espelho
Que o consiga esconder

Nos traços do meu presente
Nota-se bem o passado
E o meu rosto não mente
Ao mostrar um ar cansado

Agora tenho a idade
Do tempo mais prematuro
E tenho necessidade 
De acautelar o futuro

Os traços da mocidade
Foi a vida que os levou
Mas p’ra dizer a verdade
Gosto do tempo que sou

Mea-culpa poética

Desculpa poesia, usei-te em meu favor
Para manifestar a minha grande mágoa
Por ver a hipocrisia que gira em meu redor
E que me faz ficar com olhos rasos d'água

Desculpa boa amiga, a culpa não é tua
Só porque sou assim, aberto a quase tudo
Sou eu quem me castiga ao dar-me d'alma nua
Sem respeito por mim enquanto me desnudo

Desculpa, musa doce, a dor de quem nasceu
Com o sal do pecado à flor da pele que tem
Porém, se assim não fosse, o que seria eu
Sem ficar a teu lado enquanto a morte vem?

Voz do amor

No acaso do instante 
Por forças que desconheço
Fui um poema distante
Do mais elevado preço

Empurrado pela fome
Dum beijo avassalador
Dei ao meu fado outro nome
Chamei-lhe *voz do amor*

Chamei-lhe também, degredo
Masmorra e cela fechada
Para guardar o segredo
Desta vida, quase nada

Quando a naturalidade
Fez do fado a sua voz
Eu tomei a liberdade
De cantar só para nós

Um amigo leal

Tenho um amigo leal 
E como tal... sou bem feliz
Com ele falo do fado 
Filho adorado... do meu país
Falamos de poesia 
E da magia... duma cantiga
Falamos da mocidade
E da saudade... que nos castiga
-
Tenho um amigo sincero 
De quem espero... o melhor sorriso
Um amigo diferente
Que diz presente... quando é preciso
Com ele vou conquistando
E vou ganhando... conhecimentos
Com ele aprendi melhor
A dar valor... aos sentimentos

Fado, fado, apenas fado

Revi todos os versos que cantei
Em nome do amor que tenho ao fado
Em quase todos eles decifrei
Mensagens de prazer abençoado

Prazer que partilhei de voz aberta
Enquanto o coração batia forte
Nos fados encontrei a rima certa
Nos fados descobri a minha sorte

Nos fados pude ver a luz da vida
Brilhando com maior intensidade
E mesmo com a alma dolorida
Nos fados descobri a felicidade

Nasci p'ra ser do fado e só assim
Consigo avaliar o meu empenho
P'lo fado que nasceu e vive em mim
Eu consigo embalar a dor que tenho

As razões da alma

A minha alma vazia
Quer paixões por decifrar
Para sentir a magia
De viver a fantasia
Dum poema por sonhar

A minha alma quer fado
Cantado pela verdade
Quer poemas sem pecado
Que me falem do passado
Sem o travo da saudade

A minha alma quer versos
Versejados p’lo desejo
Nos sonhos mais controversos
Há sentimentos dispersos
Onde ainda me revejo

A minha alma sentida
Quer um lugar encantado
No curso real da vida
A minh’alma agradecida
Quer fados, dentro do fado

Soneto à margem da vida

Além no horizonte empobrecido
As vidas têm pouco mais que nada
O sol quase não faz algum sentido
E o dia é quase sempre madrugada

As mães passam o tempo em orações
Os pais já sequer sabem suplicar
Talvez porque em seus pobres corações
A fé não tenha espaço pra morar

O vento traz, em forma de perigo
A força da tragédia acentuada
Que espreita ferozmente a qualquer hora

É tão imensa a dor, que não consigo
Imaginar a vida, quando nada
Tem mais valor que a alma que não chora