Blogue especialmente dedicado à minha filha *Marta Castro *a razão maior da minha vida*

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Este meu fado saudade

Diz ao fado e à cidade
Que é grande a minha saudade
Diz ao fado e ao país
Que longe não sou feliz

Diz às ruas de Lisboa
Que a saudade não perdoa
E diz às ninfas do Tejo
Que morro apenas num beijo

Esta distãncia
Tem sempre a janela aberta
E tem a palavra certa
Para rimar com saudade
Esta distãncia
É um sopro magoado
Que desperta em mim, mais fado
Mais fado e mais felicidade


Diz às estrelas do céu
Que o luar é todo meu
Pede à chuva, pede ao vento
Que afaguem o meu lamento

Diz aos poetas da vida
Que vivo d’alma ferida
Diz ao meu velho país
Que longe não sou feliz

Balada do futuro

Terminada a escola / Toca a trabalhar
Poisando a sacola / Em qualquer lugar

O caminho agora / É bem diferente
Trabalha e namora / Homem feito gente

Já pensa em cigarro / Já bebe café
Sonha com um carro / Sempre que anda a pé

Já vai para a farra / À hora que quer
Tem uma guitarra / Para se entreter

Vai para a bancada / Ver o futebol
Leva a namorada / Nos dias de sol

Sai com os amigos / P’ra jogar bilhar
Foge dos perigos / Evita falhar

Montou uma empresa / Do ramo que gosta
E tem a certeza / De ganhar a aposta

Pela internet / Divulga o que tem
E apenas promete / Vir a ser alguém

Casado e feliz / Família a crescer
Amando o país / Que o viu nascer

Projeta o futuro / Nos passos que dá
Tornando seguro / O seu amanhã

O tempo vai indo / A vida a rolar
Tem um sonho lindo / P’ra realizar

A grande paixão / Que o traz agarrado
É tocar violão / E cantar o fado

Fim de linha

Parti o vidro da janela onde a saudade
Vinha espreitar a minha alma tão dolente
Parti o vidro, porque o vidro, na verdade
Nada guardava por ser vidro transparente

Mudei a chave da portada do meu lar
Para que tu não mais viesses ter comigo
Mudei a chave para não puderes entrar
Na minha casa, por não ser o teu abrigo

Mudei o email e mudei de telefone
Também mudei o meu perfil no facebook
Porém mantive a minha idade e o meu nome
A cor de pele, o meu sorriso e o meu look

Mas se vieres e me trouxeres nova paixão
Com garantias de mudanças p'ra melhor
Aceitarei e abrirei meu coração
Porque afinal nada mudou no meu amor.

Impaciência

Enquanto não vieres, não adormeço
Apenas porque fico sempre alerta
De ti não me separo e nem esqueço
Que só de ti me chega a hora certa
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Enquanto não vieres, já nada conta
Apenas a minh'alma te procura
Tu és a estrela-guia que me aponta
Caminhos que me levam à loucura
-
Enquanto não vieres sou voz fechada
Fazendo do silêncio a lei bendita
Até que a noite imensa e ansiada
Desperte no amor que por ti grita

Contraponto

Sabendo a dimensão do amor que tenho
Aceito a dimensão do meu fracasso
Rejeito tempestades que desdenho
Levando a minha voz ao meu espaço

De quando em vez, perdido na cidade
O palco onde o poeta é mais vulgar
Liberto a minha sã leviandade
E vou de peito aberto, então, pecar

Eu peco quando olho sem limite
O corpo da mulher que por mim passa
E peco quando em vez duma chalaça
Exibo o atrevimento dum convite

Eu peco quando tenho a pretensão
De ter uma só rua para mim
Eu sou o contraponto do verão
Que ao beijar uma flor, queima o jardim

Chuva a meu gosto

A chuva chegou bem cedo
Mas partiu tão em segredo
Que quase ninguém notou
Partiu deixando a certeza
Que regressa mais acesa
P'ra rever o que deixou

A chuva terá saudade
De passear na cidade
E molhar solo sagrado
Ao regressar vai querer
Ir pela mão do prazer
Sentir o cheiro do fado

Enquanto a chuva não chega
A minh'alma não renega
O tempo que tem agora
Não sendo o tempo que quero
Eu não entro em desespero
Porque a chuva não demora

A saudade e a memória

Eterna saudade que faz da memória
Poema-verdade no livro da história

Saudade maior que mesmo dorida
Realça o amor no curso da vida

Pintada em poema com tintas de sangue
A saudade é tema quase sempre exangue

Exangue por dar fraqueza demais
Fazendo soltar suspiros e ais

Saudade que chora, saudade que dói
Fogo que devora, maltrata e destrói

Saudade que mora nas cordas da voz
Quando a alma chora por dentro de nós

Por leis que desconheço

Chegei aonde cheguei
Tenho o nada que mereço
E por leis que desconheço
Comecei logo no berço
A cumprir a minha lei

Reneguei sonhos nefastos
Por recear o seu preço
E por leis que desconheço
Vivi sonhos muito gastos
Com empenho e muito apreço

Para conhecer o mundo
Virei a vida do avesso
E por leis que desconheço
Fui poeta vagabundo
No meu poema disperso

Tenho a triste sensação
De não ser o que pareço
E por leis que desconheço
Naturalmente obedeço
À lei de qualquer paixão

Bastião do amor

Bastião deste lar feito d'amor
Bastião do amor a que me dou
Perfeição do olhar madrugador
Bendita cor que a vida me ofertou

Milagre que chegou na hora certa
Pra dar rumo feliz ao meu caminho
Contigo partirei à descoberta
Da luz maior que vem do teu carinho

Por ti, eu subirei vales e montes
E vencerei montanhas sinuosas
Irei buscar a água às melhores fontes
Irei buscar perfume às melhores rosas

Não há barreiras fortes que m'impeçam
De te dar o futuro em salva d'ouro
As minhas ambições em ti começam
Bastião que és o meu maior tesouro

Silêncio meu amor

Deixa que este silencio, invente uma mensagem
E faça deste fado, um hino ao nosso amor
Deixa que este silencio, envolto de coragem
Vá roubar ao passado, o sol mais redentor

Deixa que este silencio. alucinante e louco
Seja a única lei dos fados que compomos
Deixa que este silencio invente a pouco e pouco
Versos que cantarei em honra do que fomos

Silencio meu amor, silencio... porque a vida
Quer esquecer as regras e a lei em que vivemos
Silencio meu amor, minha fúria incontida
Eu sei que não renegas os sonhos que tivemos

E quando o meu silencio acordar a memória
Deixa que seja eu o dono da saudade
Um amor tão intenso e tão cheio de história
Merece a luz do céu em franca claridade

A saudade e a noite

Esta noite vou saber
Se a saudade faz doer
Quando me baila na voz
Irei cantá-la a preceito
Docemente... e de tal jeito
Que ela falará de nós

Esta noite, vou tentar
Pôr a saudade a rimar
Com as letras do teu nome
Um nome desconhecido
Mas que me soa ao ouvido
Quando de amor tenho fome

Vou ser o rosto da lua
Que se passeia na rua
Onde o sol já teve acoite
Vou ser fado em liberdade
E vou andar co'a saudade
De mão na mão, toda a noite

Amor de toda a vida

Amor de toda a vida e mais que seja
Que não me cansas nunca, nem te cansas
Tu és muito mais forte que a inveja
Que teima em algemar doces lembranças

Luar que sempre brilhas no meu fado
E raramente vais onde não vou
Contigo tens o dom imaculado
Da paixão que a verdade abençoou

Amor que sempre tens a rima certa
Amor que rimas tudo o que tem cor
Talvez seja por ti que sou poeta
Talvez seja por ti que canto o amor

Amor que me seduz e me sufoca
Amor que me condena a ser feliz
A doçura voraz da tua boca
Expressa o que minh'alma nunca diz

Prematuro

Eu já sou muito mais velho 
Do que deveria ser
E não há nenhum espelho
Que o consiga esconder

Nos traços do meu presente
Nota-se bem o passado
E o meu rosto não mente
Ao mostrar um ar cansado

Agora tenho a idade
Do tempo mais prematuro
E tenho necessidade 
De acautelar o futuro

Os traços da mocidade
Foi a vida que os levou
Mas p’ra dizer a verdade
Gosto do tempo que sou

Mea-culpa poética

Desculpa poesia, usei-te em meu favor
Para manifestar a minha grande mágoa
Por ver a hipocrisia que gira em meu redor
E que me faz ficar com olhos rasos d'água

Desculpa boa amiga, a culpa não é tua
Só porque sou assim, aberto a quase tudo
Sou eu quem me castiga ao dar-me d'alma nua
Sem respeito por mim enquanto me desnudo

Desculpa, musa doce, a dor de quem nasceu
Com o sal do pecado à flor da pele que tem
Porém, se assim não fosse, o que seria eu
Sem ficar a teu lado enquanto a morte vem?

Voz do amor

No acaso do instante 
Por forças que desconheço
Fui um poema distante
Do mais elevado preço

Empurrado pela fome
Dum beijo avassalador
Dei ao meu fado outro nome
Chamei-lhe *voz do amor*

Chamei-lhe também, degredo
Masmorra e cela fechada
Para guardar o segredo
Desta vida, quase nada

Quando a naturalidade
Fez do fado a sua voz
Eu tomei a liberdade
De cantar só para nós

Um amigo leal

Tenho um amigo leal 
E como tal... sou bem feliz
Com ele falo do fado 
Filho adorado... do meu país
Falamos de poesia 
E da magia... duma cantiga
Falamos da mocidade
E da saudade... que nos castiga
-
Tenho um amigo sincero 
De quem espero... o melhor sorriso
Um amigo diferente
Que diz presente... quando é preciso
Com ele vou conquistando
E vou ganhando... conhecimentos
Com ele aprendi melhor
A dar valor... aos sentimentos

Fado, fado, apenas fado

Revi todos os versos que cantei
Em nome do amor que tenho ao fado
Em quase todos eles decifrei
Mensagens de prazer abençoado

Prazer que partilhei de voz aberta
Enquanto o coração batia forte
Nos fados encontrei a rima certa
Nos fados descobri a minha sorte

Nos fados pude ver a luz da vida
Brilhando com maior intensidade
E mesmo com a alma dolorida
Nos fados descobri a felicidade

Nasci p'ra ser do fado e só assim
Consigo avaliar o meu empenho
P'lo fado que nasceu e vive em mim
Eu consigo embalar a dor que tenho

As razões da alma

A minha alma vazia
Quer paixões por decifrar
Para sentir a magia
De viver a fantasia
Dum poema por sonhar

A minha alma quer fado
Cantado pela verdade
Quer poemas sem pecado
Que me falem do passado
Sem o travo da saudade

A minha alma quer versos
Versejados p’lo desejo
Nos sonhos mais controversos
Há sentimentos dispersos
Onde ainda me revejo

A minha alma sentida
Quer um lugar encantado
No curso real da vida
A minh’alma agradecida
Quer fados, dentro do fado

Soneto à margem da vida

Além no horizonte empobrecido
As vidas têm pouco mais que nada
O sol quase não faz algum sentido
E o dia é quase sempre madrugada

As mães passam o tempo em orações
Os pais já sequer sabem suplicar
Talvez porque em seus pobres corações
A fé não tenha espaço pra morar

O vento traz, em forma de perigo
A força da tragédia acentuada
Que espreita ferozmente a qualquer hora

É tão imensa a dor, que não consigo
Imaginar a vida, quando nada
Tem mais valor que a alma que não chora

Imprevisível

Procurei-te nas palavras
Com a força de quem ama... em fogo aceso
No entanto não moravas
Nas rimas da minha chama... em fogo preso

Nem sequer fazias parte
Dos livros que folheei... intensamente
Sendo assim, não pude dar-te
Versos que por ti gerei... amor ausente

Tentei trazer-te até mim
Com poemas sem memória... acontecida
Pra não recordar o fim
Do livro da nossa história... arrependida

Tudo em vão, não foi possível
Encontar-te aqui por perto... da ternura
Tu és tão imprevisível
Como água no deserto... em noite escura

Eternamente poema

Perdidos no mar / Fomos apraiar
Na ilha maior... e então
Subimos marés / E sem timidez
Fizemos amor... em paixão

A onda gigante / Chegou no instante
Do amor feito lume... e depois
Levou o encanto / E deixou o pranto
A carpir ciúme... p’los dois

Um tempo mais tarde / A minha saudade
Visitou a foz... porém
Nada aconteceu / O vento varreu
O rasto de nós... pois bem

Resta-nos então / A recordação
Daquela união... suprema
Ai amor ausente / Luz do meu poente
És eternamente... poema

A cor do amor

Já não conheço bem a cor da madrugada
Já nem sei descrever a cor real do amor
No coração d’alguém sou pouco mais que nada
E já nem sequer sei se o meu amor tem cor

Eu já mal me conheço, apenas sei meu nome
A vida não me dá o sol dum amor puro
O nada que pareço é dor que me consome
Pois no meu amanhã não há cor de futuro

Quero ter este fado em minha companhia
Para ter um poema ao alcance da mão
Meu canto magoado é som de nostalgia
E a alma deste tema é cor duma paixão