Este modesto blogue é especialmente dedicado à minha filha *MARTA CASTRO* a razão maior duma vida em amor !!!

Eu tenho a noção exata // Das minhas limitações // Mas quando d'amor se trata // Perco todas as noções.

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A maior parte destes 1.000 poemas poemas tem o Fado como destinatário. Se algum deles lhe agrada, cante-o.

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Estações de magia

Pairava no ar um cheiro a desejo
Vindo duma estrela sozinha, carente
Soltou-se da boca o sabor dum beijo
Que soube prendê-la de maneira ardente

As outras estrelas, talvez por ciúme
Roubaram a luz desse bom momento
E assim, no ar, vai pairando o lume
Que apenas traduz dor e afastamento

Agora a estrela vagueia perdida
Pelo universo do amor que se foi
Sinto pena ao vê-la tão desiludida

Mostrando que a dor ainda lhe dói
Mas talvez um dia (porque há sempre um dia)
O amor renasça para ser eterno
Na luz da paixão há sempre magia
Primavera, Verão, Outono ou Inverno

Rasto

Passou por mim
Quase disfarçadamente
E tão sorrateiramente
Que quase nem percebi
Passou por mim
Mas seu perfume ficou
E foi ele que marcou
A minha paixão por si

Perfume forte
Intenso como convém
Um perfume que a ninguém
Passava despercebido
Talvez por sorte
Fui eu que me aproximei
P’ra ficar, como fiquei
Deveras entontecido

Segui o rasto
Do perfume inebriante
Mas percebi num instante
Que de nada valeria
Esse perfume
Era apenas a saudade
A dizer que a felicidade
Vai aparecer qualquer dia

Certezas do meio da vida

Sou uma alma descrente
Sou um verso sem magia
Sou um peso sem medida
Mas confesso humildemente
Que não sendo o que queria
Sinto-me bem com a vida

Cheguei aonde cheguei
Sem conseguir derrubar
Barreiras que a vida tem
Do pouco que conquistei
Lá consegui conquistar
Males que me fazem bem

Talvez o meu tempo entenda
De que forma cá cheguei
E que passos foram dados
Muito embora eu compreenda
Que o tempo que demorei
Foi sempre tempo de fados

Começando

Um toque de mão quase acidental
Um olhar cruzado, um franco sorriso
Aquela expressão bela e natural
Era toda fado, toda paraíso

Ficamos os dois sem respiração
Quase sem poder cumprir o destino
E logo depois, a tal reação
Do corpo a querer um verso divino

Tentando suster o instinto louco
Do amor que aparece repentinamente
Deu p'ra perceber que o tempo era pouco
Pois quando amanhece tudo é diferente

A vida aceitou o fogo profundo
Deixando passar a brisa maior
E assim começou a história do mundo
E assim começou a história do amor

Só nosso... tão nosso

Quero a tua boca
P'ra beber a vida
Quero um vendaval
Que seja dos dois
Quero-te mais louca
Mais desinibida
Entrega total
Antes e depois

E nada mais quero
A não ser que tenhas
Algo bem maior
Do que o próprio céu
É por ti que espero
Oxalá que venhas
E tragas amor
P'ra juntar ao meu

Perfeito, perfeito
É este meu jeito
De amar como quero
De amar como posso
Perfeito, perfeito
É este pecado
De viver um fado
Só nosso, tão nosso

Intuitivo

Se mesmo sem te ver, sei onde estás
E mesmo sem te amar, sei que estás bem
É fácil perceber porque que me dás
O fogo mais feliz que ninguém tem

Estrela de maior intensidade
De todas as que tem o firmamento
'stando longe de ti.... sou a saudade
'stando perto de ti... sou o momento

Contigo existe fogo, imenso fogo
Queimando esta paixão a tempo inteiro
Aceitas que o amor se faça um jogo
No qual sempre ficamos em primeiro

E mesmo que a distância nos afaste
Sabemos manter viva a nossa chama
É bom que o nosso amor nunca se gaste
E seja sempre um fado em nossa cama

Este recado meu

O pouco que de mim vos posso dar
É tudo quanto em mim consigo ter
Não sei o que fazer p'ra melhorar
O mal, que sem querer posso fazer

Em mim apenas tenho este recado
Que pobre como é, não vale nada
Na alma que vos dou em cada fado
Podem ver a tristeza disfarçada

Já nada tem o brilho que tivera
Já nada tem a mesma dimensão
Ao longe vai a minha primavera
E bem mais longe vai o meu verão

Apenas o inverno prevalece
Mostrando esta fraqueza que hoje sou
O pouco que vos dou em fado-prece
São restos que o passado me deixou

Alma do meu sonho

Tu moras nos meus sonhos mais gostosos
E dás novo sabor à minha noite
Porém, não há lugar onde se acoite
O sumo dos meus beijos carinhosos

Tu moras no luar que me seduz
E brilhas muito mais que qualquer lua
Por ti, na minha alma ainda flutua
A magia dos versos que compuz

Tu moras no meu tempo por sonhar
Eu sonho, esse meu tempo por viver
Nas rimas dum poema por gerar
Há versos que não posso descrever

Alma do meu sonho
Que não tens pecados
Só por ti componho
Versos encantados
Alma do meu sonho
Lua envaidecida
Só por ti transponho
Barreiras de vida

A minha confissão perfeita

Confesso que sinto por ti, amor a valer
Confesso que sou uma onda sempre ao teu dispor
Confesso que quando te vi, me senti renascer
Confesso que por ti me dou aos caprichos do amor

Confesso que não me revejo na tua distãncia
Confesso que não me revejo sem o teu calor
Confesso que não te mereço, meu sonho maior
Confesso que pelo teu beijo me sinto, esperança em cor
Confesso que a minha loucura és tu, minha flor

Confesso que apenas contigo me sinto feliz
Confesso que não me domino sem ti a meu lado
Confesso que és o abrigo que eu sempre quis
Confesso que és meu destino, meu céu e meu fado

Alma tristonha

Mote
A saudade se levanta
Na minha alma tristonha
Sonhando sempre que canta
Vai cantando quando sonha


Cada vez que o fado vem // Acordar a voz que sou
Eu por inteiro me dou // Aos versos que o fado tem;
O meu coração também // Tem motivos p’ra sonhar
E também quer expulsar // Os sonhos pela garganta
Quando sem anunciar
A saudade se levanta

Sinos batem docemente // No adro da poesia
Anunciando a magia // Dum momento diferente;
O sonho baila contente // Ao redor duma canção
Sempre que a voz da razão  // Feita de nudez risonha
Coloca mais emoção
Na minha alma tristonha

Alma que soltando a voz // Dá ordens ao coração
Coração que por paixão // Palpita se estamos sós;
Talvez seja só por nós // Que o fado tem a magia
Da sublime poesia // Que nos fascina e encanta
Em perfeita sintonia
Sonhando sempre que canta

Ai fado da minha vida // Que tens a vidas que queres
E que sempre que preferes // Levas o amor de vencida;
Tu nunca dás por perdida // Uma luta desigual
Tratas de forma leal // Entrave que te transponha
E assim o amor real
Vai cantando quando sonha

Saudade semi-nua

Roubei um beijo à saudade
Mas nem assim consegui
Apaixonar-me por ela
Roubei um beijo à saudade
E só então percebi
Que ela vive numa estrela

Vive na estrela do tempo
Fazendo o que bem lhe apraz
Sem dar contas a ninguém
Vive na estrela do tempo
E pelo tempo é capaz
De trocar beijos d'alguém

De quando em vez, por maldade
A saudade vem à rua
Cantar e contar pecados
De quando em vez, a saudade
Fica d'alma semi-nua
E põe mais alma nos fados

Tempos sem rima

Depois que a solidão me descobriu assim
Totalmente algemado ao poema perdido
Eu tive a sensação de ter chegado ao fim
Ao dar por consumado um fado proíbido

Mas percebi porém que a luz da branca noite
Era um clarão imenso e de rara magia
Clarão vindo do além, em busca dum acoite
P'ra tornar mais intenso o brilho da poesia

Ao tentar decifrar o mistério da idade
Dei por mim a viver uma vulgar história
Então, para voltar ao tempo da saudade
Dispuz-me a remexer no livro da memória

Só então percebi que o tempo já passara
Era tarde demais p'ra voltar ao passado
Agora estou aqui porque a vida não pára
Em direcção ao cais há muito anunciado

Para lá de tudo

O gesto de ternura que me fazes
Carrega imensidões de bem querer
No sopro da frescura que me trazes
Encontro o mais suave amanhecer

Desvendo poesia intemporal
No simples despertar da tua boca
E tenho a noção mais do que real
Do fogo que me dás, em coisa pouca

Depois desse momento de magia
Em que a saudade, pouco ou nada tem
Existem turbilhões de poesia
Formando uma canção de amor e bem

Não temas o futuro que virá
Nem queiras ver o sonho doutra cor
O nosso amor é fogo da manhã
E nada está p’ra lá do nosso amor

Soneto para Eunice

Quando se fala em magia teatral
E na sua tão enorme e mais valia
Também se fala de amor à poesia
Num elo de paixão intemporal

Quando se fala em magia teatral
E do brilho que tem cada momento
Também se fala daquele encantamento
Que sendo nosso, tem marca universal

GIL VICENTE sonhou e fez nascer
Esta forma de amar e de viver
Para que a arte de Talma se cumprisse

Os deuses teatrais reconheceram
Que p'lo muito que dela receberam
Quando se fala teatro... diz-se EUNICE

Fraquezas existenciais

A força que parece ser tão forte
Não passa de fraqueza disfarçada
A sorte que parece trazer sorte
Não passa dum azar em galopada
... sorte danada ...

A luz que tem o sol descolorido
Não passa dum inverno enganador
O sonho que parece mais florido
Não passa dum jardim desolador
... sem luz nem cor ...

Mistérios são os rumos que previ
Na hora de prever o meu futuro
Facassos são o fruto que colhi
Neste viver tristonho e inseguro
... e pouco puro ...

Promessas foram nuvens de fumaça
Perdidas no espaço do meu erro
E sendo assim, por muito mais que faça
Eu sou a luz do mais cruel desterro
... em que me encerro ...

Vivências de fado

Já cruzei diversos mares
Já pisei diversas ruas
Já decifrei os olhares
De quase todas as luas

Já afoguei desenganos
Na água de muitos rios
Já perrcorri oceanos
Na proa de mil navios

Cultivei terras de pó
Com sementes d'ilusão
Mesmo assim, quedei-me só
Mais só que a palavra não

E quando te conheci
Qual nuvem de sol e cor
Não acreditei em ti
E perdi um grande amor

O tempo e a saudade

Abriram ao mesmo tempo
A porta que dava acesso
Ao evento anunciado
No mais preciso momento
Em que tinha o seu começo
Mais uma noite de fado

Sentaram-se à mesma mesa
E como um casal perfeito
Sussurraram em surdina
Os dois na firme certeza
De viver no mesmo peito
E cumprir a mesma sina

Com fados de bom rigor
Saciaram à vontade
A sede que ambos traziam
Até que um fado d'amor
Recordou a realidade
Em que ambos então viviam

Ele... era um tempo cansado
Ela... era a doce saudade
Dois destinos desiguais
Cada um foi pra seu lado
Em busca de felicidade
E não se encontraram mais

Rapsódia de Maio

Fado Ginguinha de Lino Teixeira
Para que o fado tenha a sua identidade
Mantendo o rumo já traçado pela vida
Basta tratá-lo com a tal simplicidade
Que brilha mais quando a saudade é florida

Fado Carriche de Raúl Ferrão
O fado sabe melhor
E quase parece reza
Quando a saudade tem cor
Sem que a cor seja tristeza

Fado dos Sonhos de Frederico de Brito
Porque a tristeza não tem
A beleza e a candura
Que tem a luz infinita
Nunca, nunca sabe bem
Porque não tem a doçura
De que o fado necessita

Fado Moleirinha *Popular*
Para que o fado seja sempre a oração
Que se levanta quando a alma quer falar
Basta manter aconchegado ao coração
Aquele beijo que a saudade sabe dar

Som de poesia

Nem sempre escrevi por nós
Mas o pouco que escrevi;
Foi sempre a pensar em ti
E no som da tua voz
A voz a que me prendi

Prendi-me porque encontrei
Nessa tua voz perfeita;
Poemas da minha lei
Onde a alma se deleita
Quando o coração é rei

Em nome da luz crescente
Que mora no teu olhar;
Prendi-me e naturalmente
Fiz poemas p'ra te dar
Meu amor, sempre presente

Pedro-fadistice

Dedicado aos que (erradamente) desvalorizam o Fado Pedro Rodrigues

A minha forma de ser
Pode até ser a pior
Das formas que a vida tem
Mas consigo perceber
O dom de quem tem valor
E não invejo ninguém
-
Fico feliz quando escuto
Fado cantado com brio
E com o rigor perfeito
Mas quase que ponho luto
Quando, em franco desvario
Não oiço fado a meu jeito
-
É tanta a leviandade
É grande o atrevimento
De que o fado bem padece
Que até parece maldade
Aquele descaramento
Que a cultura não merece
-
Sendo assim, pergunto eu;
Será que gostam de fado
Aqueles que o tratam mal?
O fado, quando nasceu
Já veio predestinado
A ser voz de Portugal

Crepúsculo poético

A madrugada não tem
O brilho que tem o dia
Nem tem o sol p'ra beijar
No entanto, quando vem
Traz-me clarões de poesia
Sob a luz crepuscular

Chega sempre à mesma hora
Envolvida no mistério
Que alguém jamais decifrou
Pouco tempo se demora
Porque mantém o critério
Que a natureza ditou

Aproveito a sua luz
Para rimar o silêncio
Que faz lei quando ela vem
Foi por ela que compus
Poemas a que pertenço
E que não dou a ninguém

Superação

Aprendi a caminhar
Com os medos do destino
E assim consegui chegar
Ao mundo, onde se calhar
Sempre serei um menino

Um menino já crescido
Que vai mantendo a esperança
De ver o sonho cumprido
Nunca perdendo o sentido
De continuar criança

Criança desencantada
Com o saber que lhe cabe;
O saber não vale nada
Quando é bastante pesada
A cruz de quem muito sabe

Não pode andar à deriva
Quem quiser viver em paz
P'ra sentir a chama viva
Há que manter sempre ativa
A luz que a vida nos traz

Dor e saudade

A dor tem o condão quase perfeito
De não reconhecer quem sofre mais
Nem sabe porque jeito e de que jeito
Supera os seus instintos naturais

A dor tem a saudade em parceria
Nos fados em que a voz quase não sai
As duas fazem sempre companhia
Aos fados em que a rima é sempre um ai

É sempre dor
O final dum grande amor
Porque a saudade é maior
Se a solidão nos invade
Tudo é vazio
Bem mais frio e mais deserto
E já ninguém sabe ao certo
Como suster a saudade


A dor e a saudade, irmãs do fado
Produto da paixão que tem raízes
Juntinhas no compasso desejado
Fazendo acontecer horas felizes

Felizes, porque mesmo doloridas
São sopros de magia acontecida
E sempre pode haver horas floridas
Quando a saudade é dor e a dor é vida

Lua do nosso fado

A lua que te viu ficou tristonha
Quase mudou de cor nesse momento
Pois tu tens a beleza com que sonha
Qualquer astro maior do firmamento

Não foi somente a lua que sentiu
Apreço pelo quanto em ti existe
Também o meu olhar, quanto te viu
Sucumbiu ao olhar com que me viste

Não sei se foi d'amor ou de paixão
O fogo que por nós foi ateado
Só sei que p'lo bater do coração
Senti acontecer nosso fado

Depois daquele fado acontecer
Outros fados vieram, mas eu sei
Que o tempo que nos fez retroceder
Deixou uma saudade a fazer lei

Revelações

Neste canto, prece minha
Nunca a alma está sozinha
Porque o fado está com ela
Mesmo doendo por dentro
O fado é sempre o momento
Em que paixão se revela

O fado no seu empenho
Revela amores que não tenho
Que não tive, nem terei
Quase num grito magoado
Corre as ruas dum passado
Ao qual jamais voltarei

São tantas e tão perfeitas
As revelações sujeitas
Aos sonhos que sei carpir
Que quando ao fado me dou
Sei quem sou e o que sou
E sei onde quero ir

Falando com a saudade

Falei com a saudade há pouco tempo atrás
Mostrei em bom rigor a alma do meu fado
Falei com a saudade e senti-me capaz
De confessar o amor que sinto p´lo passado

Amor sim, pois o tempo algemou em paixão
O encanto que se rende a tudo o que já fiz
A dor vive cá dentro em franca comunhão
Com tudo o que me prende ao que a saudade diz

Chorei com a saudade, ela chorou comigo
Por ver o quanto é pura a dor que me devora
O tempo na verdade é o maior amigo
Da lembrança mais dura em que a saudade mora

Dia D

Tudo terá sido inútil
Tudo terá sido em vão
Quando o nosso coração
For vazio, frio e fútil

Porque...
No dia em que se perderem
Todos os sonhos da vida;

No dia em que se vencerem
Os medos da despedida;

No dia em que enternecerem
Os olhos de quem s’espanta;

No dia em que humedecerem
Os lábios d’algém que canta;

No dia em que acontecerem
Todas as coisas bizarras;

No dia em que não se derem
Novas cordas às guitarras;

No dia em que arrefecerem
Os sentimentos mais nobres;

No dia em que não quiserem
Dar o pão aos que são pobres;

Tudo terá sido inútil
Sem conta, peso ou medida
E o coração da vida
Será cada vez mais fútil

O amor é um caso sério

Sejam grandes ou pequenos
Sejam a mais ou a menos
Tenham ou não direção;
Os passos que se vão dando
Têm sempre por comando
As regras do coração

Regras simples, naturais
Frias ou sentimentais
Compreensíveis ou não
Com conta peso e medida
Fazem lei na lei da vida
Pois quem manda é a razão

Podem mudar o destino
Do homem que foi menino
Ou da menina-mulher
Podem até alterar
A maneira de sonhar
Ou ver o sonho crescer

Só não podem alcançar
Profundezas do olhar
Onde reside o mistério
P'ra que a vida tenha cor
Façam vénias ao amor
O amor é um caso sério

Sucesso relativo

Quanto mais fado conheço
Mais apreço dou ao fado;
Até percebo o sucesso
De quem nasce iluminado
Pela luz do próprio berço

O sucesso é relativo
Tal como tudo na vida
E não pode ser motivo
Prá vaidade desmedida
De quem possui porte altivo

Se juntarmos ao talento
As rimas da humildade
Saberemos o momento
Em que a naturalidade
Tem brilho e contentamento

Talento... é dom invejável
Humildade... é dom perfeito
Sendo assim é aceitável
Que cada um, a seu jeito
Tenha o sucesso viável

A morte do rouxinol

O dia não me trouxe o brilho acostumado
Chegou até mais frio e muito mais cinzento
Fosse lá plo que fosse apareceu mudado
Quase em forma d'estio ao som triste do vento

Cruzou-se com a lua e nem sequer a viu
Ou talvez não quisesse o calor dum acoite
Depois ficou na rua e de lá não saíu
Sem que a tarde viesse anunciar a noite

À hora do costume abalou simplesmente
Deixando em seu lugar a certeza real
Que o seu calor de lume escaldante e ardente
Decerto ia voltar à hora habitual

Depois vim a saber porque razão o sol
Não tinha a mesma cor nem tinha o mesmo brilho
É que ele viu morrer um lindo rouxinol
Que por falta de amor tinha perdido o trilho

Sonhos livres

Quero fazer novos poemas à saudade
Quero cantar novas promessas ao amor
Talvez assim eu adormeça sonhador
E tenha sonhos em perfeita liberdade

Quero fazer novos poemas ao desejo
Quero gritar novos desejos à loucura
Talvez assim haja perfume no teu beijo
Talvez assim tenhas na alma mais doçura

Quero que o sonho tenha a cor do teu olhar
Quero que o vento tenha o som da tua voz
Talvez assim seja possível inventar
Um paraíso mais perfeito para nós

Setembro de todos os anos

Todos os dias me lembro
Que foi no mês de Setembro
Que a vida mudou de cor
Vieste dum terno jeito
Para gravar em meu peito
Teu nome em forma de flor

Todos os dias me lembro
Que se não fosse Setembro
Eu não era tão feliz
Porque tu, musa perfeita
És rima que se deleita
Nos versos que a alma diz

Todos os dias me lembro
Que Setembro é mais Setembro
Quando chega o 23
Se a vida voltasse atrás
Certamente era capaz
De fazer tudo outra vez

Fogo de amor-certeza

Este fogo d'amor
Que me sufoca a voz, se canto
É sempre o mal menor
Que me magoa tanto, tanto;
Mas tem ao seu dispor
Esta minha loucura sã
Que vibra no calor
Ardente do sol da manhã

Este fogo-certeza
Sem tempo nem espaço ou hora
Mantém ainda acesa
A chama que tivera outrora;
Fogueira de tristeza
Autêntico fracasso rude
Paixão que vive presa
Ao sol da tua juventude

Este fogo voraz
Intenso como luz celeste
É sempre nais mordaz
Do que esta solidão agreste;
Mas nada mais me apraz
Do que levar o sonho além
Por amor sou capaz
De me esquecer que sou alguém

Quem me conhece

Sou um poema sem norte
Sou uma canção sem cor
No entanto, tenho a sorte
De te sonhar, meu amor

Sou uma ave perdida
No céu da minha cidade
No entanto, em minha vida
Mantenho a tua saudade

Decerto quem me conhece
Não me conhece por dentro
Eu sou luar que amanhece
P'la força do sentimento

Sou montanha ao abandono
Sem escaladas de sonho
No entanto, sou o dono
Dos poemas que componho

Soneto número 3

Que seria do mar do pensamento
Se o tempo rejeitasse fantasia?
Seria mar de puro sofrimento
Sofrendo com marés de nostalgia!

Que seria do sol do meu verão
Se o tempo rejeitasse o mês d’Agosto?
Seria a força mor da deceção
P’la falta da beleza do sol posto

Que seria de mim sem o teu mar?
Que seria de mim sem o teu sol?
Que seria de mim, enfim... sem ti?

Seria um simples corpo a navegar
No mar da vida, em passo caracol
E só de pensar nisso... já morri

Perdidamente só

Sonhei que tinhas vindo, noite fora
Num barco feito apenas de desejo
Sonhei também que o fogo do teu beijo
Queimava a minha boca sonhadora

Sonhei que tinhas vindo p’ra ficar
Trazendo soluções e muito amor
Sonhei, amor sonhei, e ao acordar
Vi a saudade chorar, fiquei pior

Perdidamente só, longe de ti
Revi todos os sonhos que tivera
Revi também o sol da primavera
Que sem querer perdi, amor, perdi

E sem saber porquê, naturalmente
Rasguei todos os sonhos do passado
Apenas me restou um lindo fado
Que cantarei por ti... eternamente

Apenas uma flor

Deita fora o que não presta
E guarda o que tem valor
Com o amor que te resta
Podes fazer uma festa
Apenas com uma flor

Vai ao brilho do luar
E traz de lá, uma estrela
Uma estrela singular
P'ra te ajudar a pintar
A mais bonita aguarela

Voa até ao infinito
Na alma dum pensamento
E vai colocar um grito
Mais sonoro, e mais bonito
Na voz soberba do vento

Depois, no livro da glória
Escreve versos d'amor
P'ra que mais tarde, a história
Enfeite a tua memória
Apenas com uma flor

A rua do meu sonho

Na rua do meu sonho onde passas ligeira
Sou a brisa vulgar suplicando paixão
Na rua do meu sonho és nuvem passageira
Que passa sem deixar um aceno de mão

Na rua do meu sonho o sopro é uma constante
Que não quer decifrar o teu afastamento
Na rua do meu sonho eu sou o viajante
Que quer saborear a força do teu vento

Na rua do meu sonho és beco sem saída
Onde não quero entrar sem que te veja lá
Nos versos que componho há mil rimas sem vida
Que te vão transformar num sonho talismã

Um poema tempestivo

Um poema tempestivo / Escrito com emoção
Ajuda a manter altivo / O sopro do coração;
Mesmo que a voz da razão / Seja fraca ou inibida
A rima tem sempre vida / E na vida que nos dá;
Bebemos com gratidão
A vida que nela há

A bala da poesia / Faz doer, mas nunca mata
E dá-nos sabedoria / Servida em salva de prata;
Quando do amor se trata / Quem manda não é quem ama
É o amor, que tem chama / Timbrada, firme e segura;
E que pelo bem inflama
A alma em sonho-ternura

Basta um poema singelo / Com palavras a rigor
P'ra que o maior pesadelo / Venha a ser sonho maior;
Tudo passa a ter mais cor / Mais magia sedutora
Até que é chegada a hora / De beber um sonho belo;
E ser feliz, vida fora
No mais soberbo castelo

Fado Damasceno

Guitarra em movimento quase eterno
Tão cheia de beleza intemporal
Nas cordas tem a força do inverno
Que traz sempre o compasso natural

Guitarra em melodia quase louca
Assim tão louca e forte como nós
Bailando no solfejo dessa boca
Que tem o sentimento em plena voz

Guitarrra, perfeição de raro brilho
Na forma que a magia sabe ser
Qual mãe que por amor pariu seu filho
Um filho que em amor sabe viver

Guitarra que transporta em cada nota
Palavras que o poeta não criou
Guitarra, caravela em plena rota
No mar que a natureza abençoou

Desabafos da alma

Um corpo que já não sou
Um sonho que já não tenho
Um sítio aonde não estou
Um tempo donde não venho

Um grito lá no asfalto
Um pedacinho de chão
Um sonho, já sobressalto
Num peito que só diz não

Um sorriso bem escondido
Pelo soluço voraz
Um poema prometido
Falando de amor e paz

Um cravo já moribundo
Um jasmim, já sonhador
Uma porta para o mundo
Um sol muito abrasador

Uma lua divinal
Um luar apetecível
Um anjo de bem e mal
Uma redenção credível

Um suplício de dor
Num lamento magoado
Um gesto sem ter valor
Um poema sem ser fado

Um suspiro sofredor 
Neste martírio de amor

Parabéns senhor país

Parabéns senhor país / berço de sonho
Que lindo o seu fato novo / e o seu lenço
Reflete um ar feliz / um ar risonho
Mais feliz que o ar do povo / a que pertenço

Parabéns dona esperança / sonhadora
Pela idade que tem / e não parece
Você foi linda criança / encantadora
Hoje é mulher e é mãe / e bem merece

Parabéns dona alegria / sol doirado
Que prazer você me dá / que felicidade
Quero ver chegar o dia / anunciado
Em que você reinará / em liberdade

Louvarei teu nome honrado / a meu jeito
Meu adorado país / meu berço amado
É através do teu fado / voz do peito
Que me sinto tão feliz / por ser do fado