Este modesto blogue é especialmente dedicado à minha filha *MARTA CASTRO* a razão maior duma vida em amor !!!

Eu tenho a noção exata // Das minhas limitações // Mas quando d'amor se trata // Perco todas as noções.

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A maior parte destes 760 poemas poemas tem o Fado como destinatário.

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SE GOSTA DA MINHA POESIA...CANTE-A !!!

Onda negada

Depois de conhecer o teu amor
Farei contas ao tempo que perdi
P'ra ficar a saber muito melhor
Se tu és mesmo o sol que nunca vi

No mar do teu amor fiz diabruras
Para chegar depressa à tua foz
Por ti passei o cabo das venturas
Dum fado a precisar da tua voz

Bebi ondas salgadas pelo medo
Matando assim o medo que me davas
E foi também por ti que o meu segredo
Tomou conta dos beijos que negavas

Passou por mim a tua liberdade
Mas não passou por mim a tua entrega
Agora, para minha infelicidade
Tu és no mar a onda que se nega

Gritos de guitarra

Guitarra, doce mulher
Com doze cordas vibradas
Que chora sempre que quer
Entrar nas almas caladas

E sem que ninguém se oponha
Aos caprichos que ela tem
Inspira, suspira e sonha
Se está no colo de alguém

São doze gritos
Doze poemas de amor
Transportando ao infinito o grito do amor maior
Doce alegria
Que não tem data nem hora
Prantos de rara poesia, magia que também chora

Guitarra da lei perfeita
Que vibra quando se espanta
E que às vezes se deleita
Com versos que o povo canta

E sem que a alma se negue
A dar voz ao que ela sente
Nunca falta quem se entregue
Aos fados de toda a gente

Clarões do tempo das palavras

O sol que nas palavras não existe
É frio arrefecendo a emoção
Assim que o sol acende a manhã triste
A vida ganha enfim... novo clarão

Clarão dum tempo tão apetecido
Tão grato, tão feliz, tão desejado
O tempo em que dum verso proibido
Nasciam versos novos para o fado

Havia mil promessas no olhar
Com traços de conforto natural
Agora quando o sol quer pernoitar
Não encontra o espaço habitual

Sem ter onde ficar, vai de partida
Em busca doutro mundo bem melhor
E quando já não vem à nossa vida
A vida já não tem a mesma cor

Batidas de outrora

O meu peito já não tem
As batidas que tivera
O inverno que lá vem
Vai matando a primavera


Risos d’esperança florida
Passos de mal e de bem
Tudo o que tive na vida
O meu peito já não tem

Já não sou porto seguro
Nem tenho sonhos à espera
Já não tenho em meu futuro
As batidas que tivera

Vão acabando as promessas
Vai aumentando o desdém
Vejo por linhas travessas
O inverno que lá vem

O tempo vai-se perdendo
Já nada de bom m’espera
E a noite arrefecendo
Vai matando a primavera

Praia do tempo

Na velha praia do tempo
Há uma onda feroz
Que teima em não desmaiar
A voz soberba do vento
Nem sequer chega a ser voz
É apenas suspirar

As areias são o chão
Aonde irá repousar
A memória duma vida
Há uma velha embarcação
Que teima em não flutuar
Na onda desfalecida

A noite vem, lentamente
Trazer a luz natural
Que antecede a madrugada
Há um brilho diferente
Que nos diz que o vendaval
Vai chegar, não tarda nada

Enquanto o luar perdura
Uma onda caprichosa
Enfrenta a fúria do mar
Uma noite, mesmo escura
Tem a cor harmoniosa
Que a vida lhe soube dar

- - - 
Filomeno Silva
https://www.youtube.com/watch?v=vwzMg4y6bU4

Solar português

Na rua onde nasci, em tempos já distantes
Nasceu um triste fado em grande comunhão
Foi lá que eu aprendi vogais e consoantes
Foi lá que eu recebi a primeira lição

Uma casa modesta igual a muitas mais
Era berço perfeito abençoando a vida
O sol era uma festa entrando nos beirais
Deixando em nosso leito a chama preferida

De aparência vulgar e muito original
Tinha simplicidade e tinha singeleza
Esse perfeito lar era o ninho ideal
Para que a felicidade apagasse a tristeza

Na mesa não havia abundância, sequer
Havia simplesmente o pão da honradez
A casa aonde um dia aprendi a crescer
Retrata fiélmente o solar português

Deambulação poética

Ali, ao dobrar da esquina / Apreciando a beleza
Duma jovial menina / De raça bem portuguesa;
Reparei que a natureza / Tem coisas intemporais
Que talvez sejam normais / Para quem pouco conhece;
Porém, a mim me parece / Que a natureza destina
Uma luz quase divina / Que quase sempre escurece;
E quando o tempo amanhece / Da forma mais genuína
Qualquer sol desaparece
Ali ao dobrar da esquina

Ali ao dobrar do tempo/ Temendo o tempo que vinha
Reparei quanto é mesquinha / A alma do pensamento;
Tão frágil é o momento / Em que as vidas se desatam
E por vezes se maltratam / Com a dor do sofrimento;
P’la falta de sentimento / Há sorrisos de negrura
O sol é de pouca dura / A lua é raro sustento;
Enquanto no firmamento / Uma estrela chora triste
Porque pouco ou nada existe
Ali ao dobrar do tempo

Ali ao dobrar da vida / Projectada para a morte
Reparei o quanto é forte / A memória da partida;
Ai sorte... maldita sorte / Que andas de mim fugida
Desviando-me do norte
Ali ao dobrar da vida.

A saudade do meu fado

A saudade tem um rosto / iluminado
Rosto que conheço bem / infelizmente
Que mais parece sol-posto / emoldurado
A brilhar no céu d'alguém / ardentemente

A saudade tem o dom / intemporal
De ser mote do meu fado / feito ânsia
Cantado sempre no tom / original
Dum coração magoado / p'la distância

A saudade tem a cor / acinzentada
Da promessa por cumprir / como previsto
E fica muito maior / na madrugada
Com o fado a florir / saudade é isto

Mar de solidão

Fui ao mar ver se te via
Num dia / em que a maresia
Tinha o cheiro da paixão
Fui ao mar mas não te vi
E senti / que me perdi
Nas ondas da solidão

Fui ao jardim do prazer
Colher / uma flor qualquer
Que tivesse a tua cor
Trouxe uma rosa encarnada
Desfolhada / amargurada
E da cor do meu amor

Depois fui p’la noite escura
À procura / da ternura
Que por ti foi prometida
Voltei d’alma semi-nua
Porque a lua / que era tua
Perdeu o gosto p’la vida

Agora sou desalento
Que o vento / por meu tormento
Faz soluçar noite e dia
Fui ao mar chamar por ti
Não te vi / e então senti
Que trago a vida vazia

Gritos patéticos

O som que vem bater nos meus ouvidos
E mais parece voz de trovoada
Não passa para lá dos meus sentidos
Nem tem a minha alma amedrontada

Um ruído ou um grito lancinante
Nunca me fez tremer ou sentir medo
Eu só tremo ao saber que no degredo
A solidão da alma é uma constante

Os gritos sem razão não valem nada;
Confesso que por serem tão patéticos
Me levam a sorrir de vez em quando

Por mais gritos que tenha a madrugada
Apenas sei ouvir gritos poéticos
Daqueles que meu fado me vai dando

Ritual de fado

Quase sempre à mesma hora
Vai ela, p’la noite fora
Passo certeiro e apressado
Seu rumo, seu ritual
Porque ela vai, afinal
Para os retiros do fado

Na boca, leva um sorriso
Na alma leva um poema
No peito leva paixão
E nada mais é preciso
P’ra que o fado seja o tema
Da história d’um coração

Um fado e mais outro fado
Um sentimento rasgado
Uma verdade sentida
A alma fica mais leve
Sempre que o peito se atreve
A cantar a própria vida

Quase sempre à mesma hora
Vem ela p’la noite fora
Repleta de felicidade
Em nome de Portugal
Cumpriu mais um ritual
A nossa amiga saudade

A linguagem do amor

Quando as palavras são poucas
Para decifrar desejos
Existem as nossas bocas
Que beijando como loucas
Falam através dos beijos

Quando a força dos abraços
Não nos faz sofrer de dor
Estreitando nossos laços
Damos passos e mais passos
Na estrada do amor

Quando não há brancas rosas
No nosso amor sem idade
Nas nossas mãos carinhosas
Meigas e silenciosas
Há aromas de verdade

E quando estivermos sós
Numa distância maior
Através da minha voz
Inventarei para nós
A linguagem do amor

Fado do Porto que eu amo

O casamento perfeito
Entre o fado e a saudade
Gravou-me dentro do peito
Teu nome... Porto-cidade

Porto, onde tenho um abrigo
Cantado em fado maior
P'ra poder viver comigo
Em cada sonho d'amor

Porto que sempre me deu
Berços de fado e poesia
Tal como as nuvens do céu
Dão mais cor à luz do dia

Cidade da minha sorte
Tenho a sorte de te amar
Porto, capital do norte
Poema que sei cantar

Palavras doces

As tuas sábias palavras 
Podem ser mansas ou bravas
Depende de quem as sente
São de sabor bipolar
Capazes de torturar
Ou embalar docemente

Em cada palavra tua
Há terra, mar, sol e lua
Há crateras de vulcão
Quem as beber sábiamente
Sentirá naturalmente
Apertos no coração

Palavras doces, tal como doce é um beijo
Que trocado por desejo
Sabe sempre a muito pouco
Palavras doces que parecem ter nascido
Como fruto preferido
Dum amor secreto e louco

A gaveta da memória

Na gaveta da memória
Encontrei adormecida
A alma daquela história
Que dá cor ao sol da vida


Caminhei só, sem destino // Pela estrada do mundo
Na pequenez do segundo // Tornei-me mais pequenino
O meu sonho de menino // Ensombrado de magia
Decifrou a melodia // Que tem o som da vitória
E guardou a nostalgia
Na gaveta da memória

Fui corpo sem ambição // Fui sonho nunca sonhado
No espaço do pecado // Desenhei um coração;
Descobri outra razão // P’ra movimentar a vida
Depois, susti a partida // Do luar do meu encanto
E a força do meu pranto
Encontrei adormecida

Afoguei marés passadas // No mar do meu pensamento
E descobri madrugadas // Na alma do sofrimento;
O meu descontentamento // Por não conter a saudade
Negou-me a suavidade // E o sabor da glória
Selando com realidade
A alma da minha história

Rebusquei o meu passado // P’ra melhor me conhecer
Com medo de me perder // Neste mundo mal gerado;
Na essência do meu fado // Depositei esperança
E lembrei-me da infância // Amada e muito querida
Crescendo na esperança 
Que dá cor ao sol da vida

A minha rotina

Por vezes, dou comigo, calmamente
A ler um livro bom e que me encanta
A madrugada, lá surge lentamente
E o sono, é uma voz que se levanta

Mais um pequeno esforço e de seguida
Pouso o meu livro, marcando o recomeço
Desligo a luz e adormeço a vida 
Para gozar o descanso que mereço

Dormindo, vou sonhando livremente
Com coisas que me dão para cantar
Se de manhã acordo sorridente
Abro a janela, para ver o sol brilhar

Oiço um pardal, na beira do postigo
Mas não percebo bem, o que ele diz
Não sei se tenta conversar comigo
Mas sei que canta, porque está feliz

Dou de beber aos cravos sonhadores 
Que estão no meu jardim, desde botões
São cravos simples, mas são bonitas flores
Que por vezes alegram corações

Depois desta rotina matinal
Que me faz despertar, mesmo com sono
Vem a fadiga dum dia maquinal
Em que deixo de ser de mim, o dono

Trabalhos, compromissos e canseiras
Dedicação a quem não me conhece
Refeições barulhentas e ligeiras
Enchendo a minha alma de stress

Ao fim da tarde, regresso então ao lar
Onde não tenho sintomas de riqueza
Mas tenho uma família para amar
E tenho o pão honrado sobre a mesa

E quando a noite cai suavemente
Anunciando a hora de dormir
Eu sinto-me feliz e mui contente
Por amar, por sonhar, por existir

Então, para beber sabedoria
Abro o livro, que tinha começado
E assim vou vivendo o dia a dia 
Que faz de mim, um ser domesticado

A vida é que nos destina
Este viver de rotina!

Brisa

Brisa de sonho que trespassas com perfume
Este meu corpo tão sedento de ternura 
Brisa suave que queimando como lume
Traz sempre um novo clarão à noite escura

Brisa ligeira com a mesma intensidade
Da trovoada quando o tempo é invernil
Brisa que tem o mesmo som da tempestade
Que somos nós no amor mais primaveril

Brisa dum tempo em que o tempo faz promessas
E as promessas fazem despertar o sonho
Brisa que vem sempre de formas mais diversas
Emoldurando os versos que por ti componho

A terra e o homem

Há vestígios na carne dolorida
No avanço fatal da sua idade
Porque a terra que lhe deu o pão da vida
Ficou-lhe com o sol da mocidade

Na terra sepultou a juventude
Com a força do braço companheiro
No seu tempo marcado p’la virtude
Viveu... como quem tem o mundo inteiro

À terra nunca fez nada de mal
À terra nunca disse um breve adeus
Num instinto de fogo paternal
Foi na terra que quis criar os seus

É grande a ironia do destino
A vida tem mistérios de espantar
À terra, deu os sonhos de menino
E lhe dará o corpo, p’ra guardar

Contratempos do destino

Com olhos marejados e a face bem cingida
Um vulto olhava o céu e a sua cor cinzenta
Relembrando pecados e tristezas da vida
Vida que só lhe deu Outonos de tormenta

Primeiro contratempo; o adeus prematuro
De seu saudoso pai, o seu maior herói
Depois desse momento aflitivo e duro
Sua bondosa mãe, também pró céu se foi

Tentou continuar a sina que o marcou
Mas tudo correu mal, e para mal maior
Depois de dedicar a vida a quem amou
Percebeu afinal, que não havia amor

Triste, desiludido e co'a alma ferida
Algemou os sentidos ao desespero atroz
Hoje, vulto perdido, anda assim pela vida
Em busca do tal mar que lhe dê nova foz

Nunca te falei d’amor

Nunca te falei d’amor
Nem de sonhos, nem de luz
Nem te mostrei o sabor
Que o meu poema traduz
Confesso que não supuz
Que pudesses entender
Este meu jeito de ser
Um trovador sonhador
Com medo de te perder
Nunca te falei d´amor

Falei-te da primavera
Leito de rosas mimosas
Tão belas e tão formosas
Que toda a gente as venera
Andei um tempo á espera
Dum sintoma d’amizade
Para ter a liberdade
De te dar sonhos de cor
Mas p’ra minha infelicidade
Nunca te falei d’amor

Falei-te dum olhar doce
Pelo qual me apaixonei
E fosse lá p’lo que fosse
Pouco mais te confessei
Decerto não encontrei
A coragem desmedida
De te prometer a vida
Em troca duma flor
Peço desculpa querida
Nunca te falei d´amor

Sob o manto da ternura

Sob o manto da ternura
Fomos pela noite escura
Em busca de felicidade
P’ra nosso feliz espanto
O Deus do sonho e do canto
Deu-nos a luz da saudade

Uma luz tão diferente
Veio até nós, docemente
Qual peregrino encantado
Mais parecendo uma estrela
Levou-nos a uma viela
Cheia de luz e de fado

Sob o manto acolhedor
D’alguns poemas d’amor
Podemos então sonhar
O nosso amor encantado
Está na magia do fado
Conjugando o verbo amar

Visita da lua

Todo o mundo veio à rua 
Com vontade de fitar
A senhora dona lua 
Que nos vinha visitar

Movidos pela vontade 
De ver a lua despedida
Superlotou-se a cidade 
Parou o tempo da vida

Porém a lua, vaidosa 
Sabendo o quanto a queriam
Com ar de menina airosa 
Disse não ao que pediam

Não veio nem avisou 
Renegando a sina sua
E assim decepcionou 
Quem por ela veio à rua

Maior que a voz do sonho

Maior, muito maior do que a voz do sonho
Maior, muito maior que a luz que tens
É este sufocar triste, medonho
Na noite do amor, em que não vens

Prometes desfrutar do meu sorriso
Prometes repousar no meu espaço
No entanto, se de ti muito preciso
Não vens tomar lugar no meu abraço

Talvez seja só por isso
Que o luar da existência
Tem a cor e o feitiço
Do tempo da inocência

Coisas da vida

Adoro simplesmente a natureza
Que não sabe mentir mesmo que queira
Adoro a lei secreta da beleza
Que nasce p’ra durar a vda inteira

Adoro a voz do amor quando me fala
Adoro as tempestades que provoca
O amor tem sal na voz que nos embala
E tem beijos bailando em cada boca

Adoro a luz real do sol feliz
Beijando a timidez da juventude
Até sei os segredos que ele diz
Ao doirar o encanto da virtude

Sob pena de ver ao abandono
O sol da primavera prometida
Eu quero ter verão, inverno, outono
Que são coisas normais da própria vida

Sonho baladeiro

Sonhei que navegara livremente
Em solidão
Movido pela onda irreverente
Da paixão

Ao longe vi um cais iluminado
Em claridade
Um porto aonde estava o senhor fado
E a saudade

Ao leme do meu barco navegante
O rei poema
Cantando uma balada penetrante
Em voz suprema

Aproximei-me do porto do futuro
E quando quis
Atraquei o meu barco em cais seguro
E fui feliz

Essências de futuro

Sempre que a saudade chega
Toda a minh’alma se entrega
Aos caprichos da poesia
Da forma mais natural
Vou agitando, afinal
Os sopros da fantasia

Sempre que o sonho me diz
P’ra rimar e ser feliz
Mesmo que longe de ti
Vou pelas ruas do fado
Buscar o som inspirado
Dos poemas do Ary

Sempre que o amor me chama
Purifico a minha cama
Com essências de futuro
Nos braços da solidão
Sou um perfeito vulcão
De prazer e amor puro

Rimas de desalento

És brilho dum sonho lindo
No fulgor da madrugada
Abraço que vai surgindo
Sempre sem hora marcada

Tempo quente que só traz
Mais calor ao vento norte
Na hora em que a pouca sorte
É sonho que se desfaz

És rima que se coloca
Na história dum poema
Um travo amargo de boca
Quando a sorte nos condena

Também és verso perdido
Nas rimas do pensamento
Um fado desconhecido
Quando a noite é desalento

Maurício, rei soberano

Com coroa ou sem coroa
O seu enorme legado
É chama que em nós ficou;
Dentro e fora de Lisboa
Se fala do rei do fado
E dos fados que deixou

Rei-fadista, soberano
Espelho da monarquia
Que nunca foi destronada
Mesmo o sonho mais profano
Se tocado pla magia
Voa pela madrugada

A madrugada da vida
Respira a alma do fado
Que o rei fez acontecer
E como ave ferida
Vai rebuscar ao passado
Os fados que a alma quer

Por força da vida-lei
Partiu da vida terrena
Mas não partiu da memória
Rei Maurício, fado-rei
Podes crer, valeu a pena
Ouvir-te fazer história

Contas da alma

Conto p’los dedos da mão
As horas em que a paixão
Tomou conta do que sou
Feitas as contas, constato
Que sou o vivo retrato
Que minh'alma registou

Atravessei o deserto
Vezes sem fim me vi perto
Do oásis do amor
Mas tudo foi tão fugaz
Que nem sei se fui capaz
De roubar ao sonho a cor

E assim vivi sempre por ti
P’ra te alcançar rompi amarras
Não consegui, mas aprendi
A soluçar como as guitarras


Soluçando vou perdendo
Medos que por ti vou tendo
E me fazem ser assim
Cantando vou adornando
A dor que de quando em quando
Vem tomar conta de mim

Contas da alma são ais
Que solto quando no cais
Vejo o teu barco parado
Contas são puro lamento
Vestindo de sentimento
A alma de qualquer fado