Este site contém versos // De variado sabor // São sentimentos dispersos // Refletindo a minha cor.
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Amizade dedicada

Com quem me dou, dou-me bem
E não gosto que ninguém
Diga mal de quem me quer
Defendo dentro da lei
Os amigos que adoptei
E me ensinam a viver

Quando gosto, gosto a sério
E sou fiél ao critério
Que me faz ser dedicado
Dou-me assim inteiramente
A quem sabe estar presente
Nos dias de qualquer fado

Movo montanhas se a vida
Por vezes mal sucedida
Me quer mudar o destino
O que é demais nunca peço
E sou desde o meu começo
Sim
ples, franco e genuíno

Porto e tudo o mais

O Porto não é só Torre // Nem só São Bento e Aliados
Também é alma que morre // De prazer... ao som dos fados

Não são só pontes, apenas // Expostas no Rio Douro
O Porto são mil poemas // Completando o tesouro

O Porto tem Majestic // Tem Clérigos, tem Lello
E também tem gente chique // A residir num castelo

O Porto tem Fontaínhas // Tem Trindade e Congregados
Tem Ribeira, tem Alminhas // Tem capelinhas com fados

O Porto tem Miragaia // No caminho até à Foz
Tem Lordelo que s'espraia // Aos olhos de todos nós

Tem Infante e Massarelos // Tem a Sé e os Guindais
Tem recantos tão singelos // Que parecem catedrais

Tem Campanhã, Areosa // Taipas e Cordoaria
Tem poesia e tem prosa // Rimando com alegria

Tem Bonfim, tem Amial / Tem mercado no Bolhão
Tem Bonjardim, que afinal // É berço de tradição

O Porto tem o futuro
Plo amor assegurado
O Porto é Porto seguro
Dos poetas e do fado 

Lenda das rosas eternas

Mote de Linhares Barbosa // Glosa de José Fernandes Castro  
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Na mesma campa nasceram
Duas roseiras a par
Conforme o vento as movia
Iam-se as rosas beijar

Beijar como dois amantes
Que por inteiro se deram
Às loucuras mais constantes
E em loucura morreram;
Mais tarde, rosas brilhantes
Na mesma campa nasceram

Nasceram lindas, viçosas
Com aromas de encantar
Jóias quase preciosas
Que ninguém pôde imitar;
Duas almas amorosas
Duas roseiras a par

A par, as rosas paixão
Tocadas pela magia
Suspiravam emoção
Em perfeita sintonia;
Espalhando sedução
Conforme o vento as movia

Movia tudo em redor
Da sua campa, seu lar
Movia p'ra que o amor
Nunca se fosse finar
E para o tornar maior
Iam-se as rosas beijar

Tempos de dureza

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Excessivamente duro este revés 
Excessivamente duro este mau estar
Só não é excessiva a sensatez
Que nos diz que é preciso aguentar

Aguentar sempre firme na certeza
De que tudo passará... tem de passar
Só nos resta confiar na natureza 
E no poder que ela tem p'ra nos salvar

Quem tem fé, põe na fé fé a confiança 
Quem não tem, usa a força doutros modos
Respiramos ao sabor da esperança 
Que vai sendo a fé perfeita para todos

Os deuses do mundo ao lado do povo
P'ra que o mundo possa respirar de novo!

Eles e o amor

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Quando eles falavam ninguém entendia
No entanto havia
Paixão natural
Eles suspiravam quase em sintonia
Na doce magia
Dum amor real
-
Eles enfrentavam as nuvens no céu
Como quem prendeu
A ave do amor
Então lá trocavam olhares de ternura
Naquela candura
Dum jardim em flor
-
Eles pressentiam o fogo certeiro
Dum beijo mateiro
Trocado à vontade
Apertando as mãos de maneira intensa
Sentindo a presença
Da felicidade
-
Eles se reviam no mesmo sorriso
Perdendo o juizo
Por coisa menor
E até se beijavam de forma tão louca
Que numa só boca
Formavam o amor

Folha branca

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Folha branca, inspiradora
Dos quadros que vou gerando
És tu quem vai decretando
Versos sem data nem hora

Num simples e vulgar gesto
De poeta à descoberta
Lavro co’a alma um protesto
Através da rima certa

Folha branca que me dás
Espaço p’ra navegar
Nem sei como sou capaz
De tanto te rasurar
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És a maior confidente
Dos meus sonhos naturais
Confio plenamente
Nos teus dons intemporais

Maurício, rei soberano

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Com coroa ou sem coroa
O seu enorme legado 
É chama que em nós ficou;
Dentro e fora de Lisboa
Se fala do rei do fado

E dos fados que deixou

Rei-fadista, soberano 
Espelho da monarquia
Que nunca foi destronada
Mesmo o sonho mais profano

Se tocado pla magia
Voa pela madrugada

A madrugada da vida 

Respira a alma do fado
Que o rei fez acontecer
E como ave ferida 

Vai rebuscar ao passado
Os fados que a alma quer

Por força da vida-lei

Partiu da vida terrena
Mas não partiu da memória
Rei Maurício, fado-rei 

Podes crer, valeu a pena
Ouvir-te fazer história


Alfredo Guedes

Poema dedicado a um grande amigo de quem tenho "IMENSA SAUDADE"

A dor do teu silencio é muito forte
Tão forte quanto forte é a certeza
De saber que depois da tua morte
Não haverá clarões nem alma acesa

Não haverá o riso natural
De quem, tal como tu, de peito aberto
Perdoava por bem, a voz do mal
E tinha a poesia sempre perto

Não haverá jamais o tal conforto
Que de ti ressurgia sempre em fado
Um fado português emancipado
Com o sabor real do velho Porto

Enfim, contigo na eternidade
Fica connosco a amizade companheira
Que te vai relembrar a vida inteira
No fado, no amor e na saudade.

Motes do mestre Alvaro Martins

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OLHAI A NOITE que cresce
Radiante em cada verso
Cresce tanto que parece
Um enorme e BONSUCESSO

Almas de fado, rezando
AVÉ MARIA DO MAR
Devotamente lembrando
Um XAILE NEGRO invulgar

Só FALTA ESCREVER NA LUA
Esta HORA DA SAUDADE
P’ra que seja minha e tua
A rua da felicidade

ENCONTREI-ME e mesmo errante
Entre fados e cantigas
Disse, num GRITO DISTANTE
Saudade, NÃO ME PERSIGAS

Mesmo que hajam tempestades
O sonho não se desgasta
EU SEI QUE VOU TER SAUDADES
Mas… POR AGORA JÁ BASTA

Monarquia do amor

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Fosse o fado monarquia 
No reino do amor intenso
E os reis seriam, eu penso
A guitarra e a poesia 
O xaile, gravata o lenço
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Qualquer delas importante 
Qualquer delas influente
A guitarra é voz constante
Poesia é voz presente
Fado é sempre amor-amante
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Qualquer coração se agarra
Em perfeita sintonia
À doce voz da guitarra
E à voz da poesia
Que por dentro se desgarra
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Que casamento perfeito
Que singular maravilha
Guitarra a bater no peito
Enquanto o poema brilha
Embalado a nosso jeito.

Soneto à minha cidade

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O Porto tem um brilho tão intenso 
Que o sol, parece ter mais singeleza 
Até o céu, imponente e tão imenso
No Porto tem sempre maior grandeza

A luz que o Porto tem é diferente 
Tem focos onde o povo tem raízes 
O brilho dessa luz tão permanente
Parece anunciar dias felizes

Pela manhã, despertam as rotinas 
Normais, daquelas vidas genuínas
Que fazem movimento em cada rua

E quando a noite cai, vem a saudade
Tomar conta dos cantos da cidade
Iluminados pla luz da dona lua

Sofrimento e paixão

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Esta minha solidão
Parece não ter mais fim
Com razão, ou sem razão
Apenas o coração
Se vai lembrando de mim

Este meu desassossego
Parece um vulcão ferido
Mas mesmo assim, não renego
Este amor ao qual entrego
Tudo o que faça sentido

Esta loucura constante
Parece um sonho tortura
Este amor alucinante
Distante e angustiante
Vai provocar-me loucura

Mas mesmo assim, não desisto
De te procurar em vão
É por amor que eu existo
Nesta paixão, que é um misto
De sofrimento e paixão

Basta-me ver-te chegar

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Basta-me ver-te chegar
Para que o meu coração
Recomece a palpitar
E queira cantarolar
Versos de amor e paixão

Basta-me ver-te chegar
Para que tudo me agrade
Fica mais lindo o luar
Fica mais terno o cantar
Fica mais doce a saudade

Basta-me ver-te chegar
Para que o sol apareça
Quando chegas tens p’ra dar
Sorrisos de terra e mar
A quem por bem te mereça

Basta-me ver-te chegar
E tudo muda de cor
Trazes sempre no olhar
O brilho crepuscular
Que faz brilhar o amor

Quero sempre mais um fado

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Com a alma enfeitiçada
Saciada e aconchegada
Por versos do meu agrado
Quase nunca me contento
E alimento o sentimento
Do jeito mais dedicado

Posso sentir que o cansaço
É espaço onde refaço
O corpo já fatigado
A alma da própria vida
Desiludida e perdida
É sempre a alma do fado

Na hora da solidão
A razão do coração
É um sopro musicado
Sopro que vem quando quer
Ter o prazer de beber
Essências do seu passado

P’ra maior contentamento
Eu invento o tal momento
Pela voz abençoado
Para matar a saudade
Que m'invade em felicidade
Quero sempre mais um fado

Lamento portugês

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Ai Portugal, se morasses // Numa estrela em céu fechado
Talvez nunca dispensasses // Encantos que tem o fado
Talvez houvesse o cuidado // De mudar este destino
Que cumpres desde menino

Ai Portugal de CAMÕES // De REDOL e de QUEIRÓZ
Tens o sal das emoções // Em qualquer timbre de voz
É por ti que todos nós // Cumprimos por devoção
Leis do próprio coração

Ai Portugal de PESSOA // De GARRETT e HERCULANO
Portugal de gente boa // Meu poeta leviano
Pecador ou puritano // Nas tuas leviandades
Tu és o rei das saudades

Ai Portugal, se tivesses // Amores que o ARY te deu
E se nunca t’escondesses // Nas malhas que alguém teceu
Talvez o céu fosse teu // Tal como ALEIXO cantou
E JOÃO de DEUS rimou

Portugal de GEDEÃO // De AUGUSTO GIL e de Nobre
Da NATÁLIA, qual vulcão // A gritar que não és pobre
Porque o luar que te cobre // Tem rimas do Adriano
Num veleiro a todo o pano

ALEGRE disse na trova // Que o vento nada te diz
Nem te dá a boa nova // Para te não ver feliz
Porque tu… ó meu país // Do BOCAGE trovador
Fechaste o peito ao amor

Portugal das poesias // Do CARLOS CONDE e da ROSA,
LIMA COUTO, JOÃO DIAS // E JOÃO LINHARES Barbosa
De AMÁLIA, sempre ditosa // De RADAMANTO e de Rego
Meu anjo em desassossego

Ai Portugal, Portugal // Do FAUSTO tão reluzente
Meu anjo de bem e mal // Meu futuro, eternamente
Do ZECA sempre presente

Entendo-me bem comigo

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Se falo sózinho na noite calada
É porque a saudade em mim ganha cor
Cravando um espinho na boca fechada
Aguça a vontade de gritar amor

Se falo comigo é porque me entendo
Sei bem o que sou e sei o que quero
Eu sou meu amigo porque compreendo
O mundo onde estou e o que dele espero

Se falo de ti ao silêncio atroz
Que não sabe nada, de ti, meu amor
Ele diz que perdi o melhor de nós
Na hora marcada pela tua dor

Eu falo bastante de mim p'ra comigo
E sinto a coragem ter som genuino
Sou grito constante que virou castigo
Sou uma viagem com fado e destino

Pela calada da noite

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Antes do sono chegar
Senti o peito apertar
Dum jeito p'ra mim estranho
Misto de ansiedade e dor
Como quem sabe de cor
Que o amor não tem tamanho

Senti que o tempo parava
E aos poucos se mostrava
Amigo da solidão
Senti também na garganta
O nó de quem já não canta
Poemas ao coração

Tomado pela tristeza
Deixei que minh'alma acesa
Queimasse o medo que havia
Adormeci pensativo
Sem perceber o motivo
Da minha imensa agonia

Assim que o dia chegou
Tudo em mim se transformou
E reacendi a chama
Porque cedi à vontade
De convidar a saudade
A dormir na minha cama

13.05.2020 

Poemas de fado

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Já quase não há poetas
De guardanapo na mesa
Com suas velhas canetas
A deslizar com leveza

Hoje os poemas de fado
São as figuras d’estilo
Onde um verso mutilado
Quer dizer *isto* ou *aquilo*

Rima sim e rima não
Com versos de mau rigor
Em poemas que não são
Suspiros de trovador

Tudo é mais informal
Tudo é premeditado
Mas mesmo assim virtual
Nosso fado é sempre fado